A Escola de Aviação Alemã - Lipetsk (URSS) 1925-1930

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A Escola de Aviação Alemã - Lipetsk (URSS) 1925-1930

Mensagem por Winston Churchill em Seg Jul 15, 2013 4:46 pm

Por Walter Dornberger


O Tratado de Versalhes, que encerrou a Primeira Grande Guerra, tentou também dar um fim ao militarismo germânico e, com ele, ás forças de aviação que introduziram o bombardeiro indiscriminado contra populações civis da França e Inglaterra. Visando esse fim, toda a produção aeronáutica alemã, civil e militar, foi banida em curto prazo, todas as aeronaves existentes confiscadas ou destruídas, e a Aviação Militar expressamente proibida á Alemanha em caráter definitivo. A junta militar que efetivamente governou a Alemanha de 1917 até a ascensão de Hitler não se deixou deter, no entanto, nem pelas proibições dos Aliados nem pelas evidências de suas ações pretéritas: a economia destruída, a população faminta e a beira da revolução, as perdas territoriais, e toda uma geração de jovens mortos ou mutilados que a Guerra havia consumido. Tendo aprendido o valor militar da aviação, os generais estavam determinados a manter a posse dessa arma, mesmo que em segredo. Quando os subterfúgios iniciais, como os Polizeiflieger (unidades de aviação policial) e as linhas de aviação “comerciais” custeadas pelos militares falharam em enganar a Comissão de Controle Aliada. O Alto Comando Alemão lançou um agressivo programa de rearmamento extraterritorial. Essa campanha atingiu seu apogeu numa base secreta na União Soviética: Lipetsk.

O alcance das iniciativas alemãs no estrangeiro é impressionante em sua audácia, mesmo depois de 80 anos. Meses após o fim da Guerra, grandes fabricantes de armas alemães já estavam estabelecendo subsidiárias estrangeiras para conduzir a pesquisa, desenvolvimento e produção dos meios proibidos. Suíça, Suécia, Lituânia e Finlândia forneceram cobertura para a continuação do desenvolvimento de canhões, tanques e submarinos. Claudius Dornier, o homem por trás da principal fábrica de Zepelins durante a Guerra, estabeleceu-se na Suíça, apenas trocando a margem do lago Constança onde desenvolvia seus trabalhos. Hugo Junkers iniciou uma linha de montagem de aquecedores de água em suas fábricas alemãs, enquanto prosseguia a produção de aviões em Limhamn na Suécia e em Fili na URSS. Para financiar o desenvolvimento, ele ainda estabeleceu linhas aéreas comerciais na Pérsia, Finlândia (Aero O.Y.), Suécia (A. B. Aerotransport), União Soviética (Deruluft), e América do Sul (SCADTA na Columbia e Aero Lloyd Bolivia). A Albatros transferiu seu endereço comercial para a cidade livre de Memel, Lituânia. Fokker continuou a desenvolver aviões de Guerra para a Alemanha em sua Holanda natal.

Embora não houvesse falta de modelos adaptáveis para uso militar (e nem de motores de alta potência, obtidos clandestinamente de fabricantes ocidentais ansiosos para desovar a produção dos tempos de guerra), áreas para teste e treinamento eram difíceis de conseguir. A Alemanha tinha uma horda de ex-pilotos de combate em 1920, mas poucos tiveram a chance de se manter atualizados com os avanços da aviação, devido ás restrições impostas à Alemanha, Áustria e Hungria. As iniciativas alemãs em países amigos, como Suécia e Finlândia, atraiam a atenção indesejada dos serviços de inteligência Aliados, poloneses e tchecos. Uma localização menos obvia, longe dos olhos ocidentais, era uma necessidade urgente.

O Alto Comando alemão encontrou uma solução improvável vinda da União Soviética. Em 1917, o exército alemão forçou a Rússia a uma paz humilhante, e reprimiu duramente movimentos de inspiração soviética em casa e nos países ocupados. Entre1917 e 1918, unidades alemãs ajudaram o generalíssimo finlandês, von Mannerheim, a destruir os comunistas de seu país. O Alto-Comando alemão estava pronto para aceitar a paz em termos humilhantes devido á urgência de liberar tropas para combater o Movimento Espartacista alemão e os sovietes de trabalhadores na Bavaria e no Ruhr durante o inverno de 1918-1919. Apesar disso, em 1924, o Oberst Lieth-Thomsen estava em Moscou com uma equipe de oficiais alemães negociando um tratado de assistência mútua com a Força Aérea Soviética. Em abril de 1925, os governos dos dois países assinaram um acordo que dava á Alemanha o uso da base aérea russa em Lipetsk, a 250 milhas ao sul de Moscou, em troca de assistência técnica e acesso ao resultado dos testes.

Para equipar a primeira unidade áerea da WIVUPAL, Wissenschaftliche Versuchs- und Prüfanstalt für Luftfahrzeuge (Estabelecimento de testes e experimentos científicos para aeronaves), como a operação de Lipetsk foi chamada, foi planejado o uso do Junkers Ju-22, um caça monoposto derivado do Ju-21, um avião de reconhecimento de dois lugares em uso pela Força Aérea Soviética. Usando um avião similar a outro usado pelos russos , os alemães tencionavam disfarçar a nova unidade aos olhos dos serviços de Inteligência ocidentais. Infelizmente, apesar da construção moderna, toda metálica, e de inovações como tanques de combustível ejetáveis, ambos os aviões se revelaram um fracasso, sendo retirados de produção.

Em substituição os alemães usaram 50 caças Fokker D-XIII, obtidos clandestinamente durante a crise da Renânia em 1923, quando os franceses ocuparam aquela região industrial da Alemanha devido ao atraso no pagamento das reparações de guerra. Os militares alemães planejaram resistir e adquiriram os aviões de seu velho fornecedor, agora na sediado na Holanda. Todo o estoque da fábrica Fokker foi comprado, usando uma ordem de compra fantasma feita pela Argentina, sem despertar a atenção do governo holandês ou das autoridades Aliadas. Com o abandono da opção militar para a crise, os aviões foram enviados ao porto báltico de Stettin para embarque para Leningrado, chegando á URSS em maio de 1925 e entrando em uso imediatamente. Construído em estrutura metálica e madeira, com cobertura de lona, o Fokker D.XIII era um sesquiplano (biplano com asa inferior menor que a superior) de desenho tradicional, armado com um ar de metralhadoras MG.08 7,92mm sincronizadas, com motor de 450 hp e velocidade máxima de 260 km/h. Embora obsoleto, provou ser adequado na função de treinamento.

Resolvido o problema do treinamento de caça, os alemães se lançaram na busca de uma máquina de dois lugares. Nessa época, os biplaces eram o cavalo de batalha do serviço aéreo, efetuando as missões de reconhecimento, observação de artilharia e apoio á infantaria. Como na Primeira Guerra, eles também executavam ocasionalmente missões de bombardeio leve, ataque ao solo e caça. Originalmente o Ju-21 produzido na fábrica russa Junkers de Fili foi considerado, mas seu desempenho insatisfatório (perdia para o DH-9 britãnico da Primeira Guerra usado pelos russos em todos os aspectos) o condenou. Uma série de aeronaves construídas em segredo na Alemanha foi testada na Rússia: Albatros L.65, Heinkel HD.17, Albatros L.76/77 e Albatros L.78. Um modelo Junkers, o A-35, originalmente concebido como avião correio, construído na Rússia e na Finlândia, teve mais sucesso. Monoplano de asa baixa, com a típica construção metálica Junkers, derivava diretamente dos aviões alemães classe CL da Primeira Guerra. Em Lipetsk os A-35 civís foram convertidos no modelo K-53 militar com a adição de duas metralhadoras sincronizadas no nariz e uma terceira arma montada no cockpit traseiro, com trilhos para bombas colocados nas asas. Outros modelos foram avaliados em Lipetsk: um Rohrbach Roland, um Dornier B Merkur, um Junkers W.33, e um par de Junkers F.13s preenchiam a função de transporte e como treinamento para tripulações de bombardeiros.

O armamento principal de todos os aviões testados em Lipetsk era a metralhadora LMG.08 Maxim de 7,92mm. Originalmente uma arma “leve” de infantaria, foi usada mais por sua disponibilidade que por sua adaptação á função de arma para uso aeronáutico. Além do treinamento, muitos testes foram levados a cabo na base. Toda a primeira geração de aviões da nova Luftwaffe teve seus protótipos testados em Lipetsk. Em 1931 a missão alemã atingiu seu pico, chegando a ter mais de 200 pessoas. Os caças Arado Ar 64, os aviões de reconhecimento Heinkel HD.45 e HD.46, os bombardeiros Dornier Do P, Do F, e Do 11 e o hidroavião He 59 foram testados entre 1930 e 1932.

Em 1930, no entanto, a situação da operação Lipetsk tornou-se insustentável. Os soviéticos consideravam poucos os benefícios obtidos com o acordo e começavam a visualizar o perigo do rearmamento alemão. A aviação russa estava entrando numa fase de expansão por seus próprios meios e tinha pouca necessidade de auxílio externo. A própria Alemanha, após o benefício inicial do treinamento, conseguiu a certeza de que poderia reconstruir, como de fato aconteceu, sua força aérea em seu próprio solo quando chegasse a hora. O risco de espionagem tornava o teste dos modelos alemães mais recentes em solo estrangeiro um risco. E a crise econômica mundial acabou por tornar a operação Lipetsk economicamente inviável. Em 1933, com a subida do Partido Nazista ao poder, a escola alemã de Lipetsk foi fechada, depois de formar 230 pilotos e tripulantes. Dois anos depois o novo regime anunciava ao mundo a existência da renascida Luftwaffe.

FONTE: http://www.chandelle-jah.com/ (Chandelle, a journal of Aviation History)

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"Truth is incontrovertible. Panic may resent it; ignorance may deride it; malice may distort it; but in the end, there it is."

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"I will begin by saying what everybody would like to ignore or forget but which must nevertheless be stated, namely that we have sustained a total and unmitigated defeat, and France has suffered even more than we have....the German dictator, instead of snatching the victuals from the table, has been content to have them served to him course by course."
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