A Evolução da Artilharia

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A Evolução da Artilharia

Mensagem por Winston Churchill em Ter Jul 16, 2013 11:29 am

Por Kiril Meretskov

A primeira parte deste texto é uma rápida sequência desde a criação do canhão até o final da Primeira Guerra Mundial, ficando para a segunda parte o que compreende a Segunda Guerra em diante. Por que? Há um claro divisor de águas na artilharia, pois a Segunda Guerra Mundial foi o momento de ouro da artilharia, onde houve o maior emprego desta arma com os maiores avanços, depois dela, veremos que provavelmente nunca mais tenhamos a mesma situação. Antes podemos ver que pouco mudou em 500 anos de história.

Considerando a invenção do canhão que ocorreu pelo ano de 1320, um artilheiro que tivesse participado da Batalha de Crècy (1346) se sentiria a vontade na Batalha de Criméia (1853), ou seja em 500 anos pouco se mudou nas táticas dos canhões. No século XVIII começou uma evolução, não de táticas, mas sim de volume, nesse período, os paises aumentaram consideravelmente suas unidades de artilharia. Para se ter uma idéia, Frederico Guilherme I, pai de Frederico o Grande, tinha apenas um regimento de artilharia. Frederico ao assumir dobrou e o volume e continuou aumentando todo o tempo de seu reinado. No inicio ele não gostava muito dessa arma, porem com o tempo ele começou a valorizá-la, seu ultimo escrito foi em 1782 “Instruction Für Meine Artillerie”, ele estudou a fundo o uso da artilharia por seus maiores inimigos, os austríacos. A principal tática de Napoleão era que seu ataque começava com um pesado bombardeio, inclusive, podemos ver que em sua maior derrota em Waterloo, os seus canhões por dificuldades no terreno e pela posição das tropas inglesas, não conseguiu realizar um estrago muito grande. Clausewitz em seu livro “Da Guerra”, já questionava a relação entre as três armas, infantaria, artilharia e cavalharia, chamando a atenção de que se o exército tivesse excesso de artilharia o tornaria muito lento, sendo apenas interessante no que tange a defesa. O canhão no inicio não era nada mais que um mosquete gigante, sua função era de tiro direto contra as tropas inimigas. Uma cena que pode ilustrar isso foi no filme “O Patriota” de Mel Gibson, onde o personagem principal e seu filho assistem a uma batalha pela janela de uma casa, a infantaria inglesa e americana avançam uma contra a outra e pouco atrás destas linhas, se vê a artilharia, onde os canhões estão atirando direto contra as tropas atacantes.

O avanço da artilharia começou realmente no inicio do século XX, por exemplo, na Guerra dos Boers, onde foram necessários mudar alguns conceitos como canhões em linha disparando a distancia de 1500 a 2000 metros, pois um atirador escondido poderia revidar mortalmente contra os artilheiros. Então a grande mudança foi à introdução de canhões carregados por trás, que foram chamados de Fogo Rápido ou Quick Firing. Um bom exemplo de sucesso desses canhões foi o francês de 75mm modelo 1897. Outro problema resolvido foi à criação de sistemas de recuo, pois antes a cada disparo os artilheiros precisavam reposicionar o canhão para atirar. Agora imagine em meio a uma batalha e um campo que estivesse, por exemplo, com lama, o esforço desprendido e o tempo gasto para isso. Na figura 1, temos um exemplo simples de um sistema de recuo. Os sistemas de recuo tornaram-se segredos guardados e considerados de segurança nacional. Outra vantagem apresentada pelo canhão de carga pela culatra era que se podiam colocar blindagens à frente do canhão para proteger os artilheiros. Agora com a evolução do canhão em si, precisavam que a munição fosse melhorada, pois ela já não era adequada às armas existentes. Foram testados vários tipos de detonação das granadas, foram introduzidos novos explosivos de alto impacto, granadas de shrapnel (estilhaço) que tem características diferentes do estilhaço da de alto impacto, ela se aproxima mais de uma espingarda com cartucho que espalha para frente os vários balins de chumbo, pólvora sem fumaça e com maior potencia, granadas de alto impacto, granadas com gás, etc.

Fig 1 - Aqui temos um exemplo de recuo adotado em um canhão de campanha. Empregam-se dois cilindros interligados, o superior contem óleo e se comunica por uma abertura, com o inferior, no qual um “êmbolo flutuante” separa o óleo de gás comprimido. Uma biela, ligada ao cano do canhão, funciona no cilindro superior. Quando o canhão dispara, o recuo puxa o êmbolo pelo cilindro, empurrando o óleo para o cilindro inferior e comprimindo o gás. Isto freia o recuo e também armazena energia para repor o canhão na posição de tiro
 
Durante a Primeira Guerra Mundial, vimos nascer grandes monstros em matéria de artilharia, como os Grandes Berthas alemães de 42 cm, figura 2, os Grammy britânicos de 15 pol. ou os imensos canhões ferroviários, entre outros. A criação desses enormes canhões ou obuses foi possível pois o transporte passou a ser motorizado já que cavalos e bois não conseguiriam puxar esses monstros. Somente para explicar, a diferença básica de um canhão e um obus é que esse ultimo tem um cano mais curto, com isso possibilita trajetórias mais breves, portanto tiros mais próximos e são ideais para transpor grandes elevações, alem da capacidade de um projétil maior por não precisar de uma velocidade de boca muito alta. Outro tipo de arma da artilharia é o morteiro e sua diferença entre um obus é que utiliza ângulos acima de 45º, porem acabaram virando armas da infantaria, apesar de existirem morteiros pesados de que eram exclusivos da artilharia, pois não havia como deslocá-los facilmente. Os canhões ferroviários têm o inconveniente de precisarem de trilhos até o ponto onde vão ser usados e a questão de poder mirar na direção certa. Um exemplo de canhão ferroviário foi o “Canhão de Paris”, que apesar de seu tamanho, 40 m de cano, o projétil era de apenas uns 100 kg enquanto que a carga de pólvora necessária era de 180 kg e podia alcançar até 132 km de distancia. A criação de enormes obuses como os Berthas alemães, foi o que possibilitou a Alemanha vencer em Liège, que era considerada uma praça invencível, invadir a Bélgica e em seguida a França.


Fig 2 – Obus alemão de 42 cm.
Quando a Primeira Guerra se tornou estática (guerra de trincheiras), iniciou-se uma corrida desenfreada para aumento da capacidade de artilharia, pois os estrategistas achavam que o único jeito para quebrar o impasse criado era através de pesada artilharia, o que acabou mostrando-se inútil, pois quando havia uma quebra na frente, as vezes o terreno simplesmente não permitia o avanço pelo estado de destruição que as granadas haviam causado. Para se ter idéia, em Ypres, na terceira batalha, os britânicos utilizaram 2.300 canhões o bombardeio preliminar (se pode ser chamada assim), durou 19 dias totalizando 4.283.000 granadas, o General Plumer, comentou as vésperas da batalha, “Senhores, talvez não façamos história amanhã, mas por certo alteraremos a geografia”. Na figura 3, vemos um exemplo desta destruição, o forte Douaumont em Verdum.

Fig 3 – Forte Douaumont, à esquerda (1915) à direita (1916), mostra o efeito de um imenso bombardeio.
Então como podemos ver, houve uma significativa mudança nas táticas da artilharia durante a Primeira Guerra Mundial, criaram-se, por exemplo, as barragens, avançando depois para barragens rolantes. As barragens são um caso a parte, pois havia a necessidade de precisão, então os artilheiros começaram a dar atenção a fatores atmosféricos, como vento, umidade, etc. No final desta guerra, surge uma arma que a principio pensava que seria uma extensão da artilharia e tornaria o canhão móvel que foi o tanque, porem este tomou caminhos diferentes, apesar de que veremos durante a Segunda Guerra o surgimento real de canhões autopropulsados e obuses autopropulsados, mas como disse, isso fica para a segunda parte.

No campo de batalha, são muitos sons, são muitas formas de se perder a vida, mas provavelmente nenhuma cause tanto pavor e medo quanto o som das granadas da artilharia inimiga caindo e explodindo sobre sua cabeça.
Segunda Guerra Mundial, momento de ouro para a Artilharia. Nunca o mundo havia visto uma concentração tão grande de canhões e também isso nunca mais isso ocorreu. Podemos contar em determinados ataques como a travessia do Oder pelos russos, onde se utilizaram mais de 20.000 canhões, 1.236.000 disparos, que totalizavam mais de 98.000 toneladas de explosivo. Os russos sempre consideraram a Artilharia como a rainha do campo, então eles foram os que mais largamente a utilizaram. A Segunda Guerra Mundial realmente foi o ápice total do canhão, depois por vários motivos isso nunca mais ocorreu, primeiro porque a humanidade não presenciou outro conflito de tamanha envergadura quanto a Segunda Guerra e também houve tantos avanços que tornaram o canhão e suas variantes não obsoletos, mas com um uso mais restrito. Temos hoje mísseis teleguiados, bombas inteligentes, artefatos nucleares, aviões com capacidade quase ilimitada de vôo que podem executar bombardeios por todo o globo.

Um princípio tem que seguir como certo, para todo avanço nos armamentos, sempre há uma reação. Por exemplo, quanto à blindagem dos tanques era melhorada, logo era criado um canhão mais potente que podia atravessá-la, contudo, logo os projetistas de tanques criariam um com um blindagem melhor ou um designer mais apropriado. Quanto melhor se tornavam os canhões antiaéreos, mais rápido se tornavam os aviões, por isso a evolução nunca para.

Barragens de Artilharia
Muitas lições foram aprendidas com resultado da Primeira Guerra, estas já estavam assimiladas e começavam a ser postas em pratica. Por exemplo, ficou claro que bombardeios como os feitos durante a Primeira Guerra apresentavam problemas, levavam-se dias estocando munição, mais outros vários dias em ataque, perdia-se o elemento surpresa, os ataques destruíam o inimigo e suas posições, mas também destruíam o terreno por onde as tropas atacantes avançariam. Por exemplo, foram aperfeiçoadas as técnicas de barragens e estabeleceram-se três tipos distintos:

Barragem de Caixa, cujo objetivo de isolar uma parte da frente, era usada, por exemplo, quando um tanque era avariado e necessitava de conserto.

Barragem Rastejante, forma-se uma linha de explosões que é avançada em alguns metros, para que a infantaria progrida atrás dela.

Barragem Rolante, mais sofisticada que a Rastejante, mais de uma linha é bombardeada ao mesmo tempo. Na hora do avanço, os canhões que atacavam a primeira linha, passam a terceira e os da segunda permanecem atirando no mesmo lugar, no avanço seguinte são os canhões da segunda linha que passam a atirar na quarta, mantendo a terceira parada.

Outra forma utilizada pela artilharia para dar apoio era a concentração, muito mais simples que as barragens a única sofisticação é que os canhões são sincronizados para que todos os projéteis atinjam os alvos juntos, indiferentes a distancia de disparo.

Artilharia Antiaérea
A artilharia antiaérea deu seus primeiros passos, titubeantes, na guerra franco-prussiana de 1870, quando se pediu a Krupp que produzisse várias armas leves, que pudessem ser montadas em carretas leves para perseguir os intrépidos aeronautas que tentavam fugir de balão da Paris sitiada. Porém, nada se fez, além disso, até pouco antes da Primeira Guerra Mundial, quando o avião, mais pesado que o ar, apareceu nos céus e começou a ser empregado para fins militares. Na ocasião do Armistício de 1918, a artilharia antiaérea já era uma característica aceita da guerra e já se estabeleceram os traços básicos da sua aplicação e organização.

Tetos para artilharia antiaérea, a diferença entre tetos máximo, prático e eficiente pode ser vista neste diagrama. O máximo é aquele em que o projétil atinge o limite máximo contra a atração da gravidade; o prático é aquele em que o projétil atinge o ponto mais alto da detonação da espoleta; e o eficaz é o teto em que é possível combater um avião durante um período de tempo compensador. A velocidade crescente dos aviões era um desafio para os projetistas de canhões antiaéreos o teto de vôo também era outro problema a ser considerado, pois os aviões estavam com tetos cada vez maiores e o alcance máximo de tiro não conseguia alcançar essa evolução. Como a esperança de um tiro direto é remota, todas as granadas eram dotadas de uma espoleta de tempo. Os primeiros canhões usados por quase todos os paises eram os de 30 ou 40 mm de calibre. Entretanto, a mais eficiente de todas as armas era o canhão de 49 mm da Companhia Bofors da Suécia. Os alemães tinham o canhão pesado de 88 mm, muito tem se dito sobre ele, mas ele estava em pé de igualdade com o 3.7 britânico e o 90 mm americano, mas atraiu a imaginação do soldado por ser encontrado em grande quantidade e sempre estar fazendo estardalhaço. Talvez a grande ideia foi usar o Flak 88 também como canhão antitanque.

Nos princípios da guerra, os alemães apareceram com a ideia de "Torres Antiaéreas", grandes estruturas de concreto erguidas em torno das cidades e fábricas mais importantes e onde se instalariam canhões pesados para lhes dar um campo de tiro completo sem serem prejudicados pêlos edifícios locais. Essas torres destinavam-se originariamente aos canhões de 15 cm, mas como estes demoraram a aparecer, produziram-se armas especiais de 12,8 cm com dois canos. O primeiro destes equipamentos "Flakzwilling 40" foi montado em Berlim em 1942, havendo um total de 34 montados quando a guerra terminou.

Os russos utilizavam como padrão um canhão de 37 mm, semelhante ao americano e um 85 mm construído segundo linhas mais ou menos padronizadas, com a diferença que acrescentaram um frei de boca, o que permitia o uso de um cartucho mais poderoso. É interessante observar que muitos desenhistas britânicos e alemães defendiam a utilização de um freio de boca nos canhões antiaéreos, mas foram apenas os soviéticos com o seu 85 mm a usarem em grande quantidade. No final da guerra os americanos escolheram o 75 mm como arma padrão antiaérea, pois tinha o menor projétil com espoleta de aproximação, e com carga suficiente de alto explosivo, tinha mobilidade e disparo rápido, dotado de um radar e controle de tiro montados no suporte, de modo que o canhão era uma bateria autônoma.

Os Monstros
Durante a Segunda Guerra Mundial, vimos surgir algumas gigantescas armas de artilharia, uma delas foi o morteiro Mörser Karl, um gigante obuseiro autopropulsado de 60 cm de calibre. Fabricados pela Rheinmettal, pesando mais de 120 toneladas, apenas seis foram construídos, sua munição pesava mais de 2 toneladas, e tinha um alcance de aproximadamente 10 km, seus tiros destruíam quarteirões inteiros e tinha uma cadencia de tiro de no máximo 6 tiros por hora. Outro monstro foi o maior canhão ferroviário já construído, o Dora ou “Schwerer Gustav” ou “Gustav Pesado”, com seus 80 cm de calibre, era uma obra prima, sendo apenas um construído. Todo movido por eletricidade, que era fornecida por geradores, deslocando-se sobre trilhos. Tinha sido planejado para destruir os fortes da “Linha Maginot” mas como não ficou pronto a tempo da invasão da França, somente foi usado no cerco de Sebastopol, onde simplesmente pulverizava os alvos selecionados.

Utilizavam-se vagões paralelos, com o canhão montado em uma pataforma entre eles e apesar de seu enorme tamanho podia ser montado em até uma semana, graças a componentes pré-fabricados e um gigantesco guindaste, montado previamente. Precisava de 350 homens para se fazer um disparo e somando-se ao pessoal de apoio, tinha-se a pequena guarnição de 3.870 homens comandados por um coronel. Tinha alcance de 47 km e o peso de sua granada de penetração em concreto era sete toneladas enquanto que a granada de alto explosivo chegava perto 5 toneladas. Para cada tiro gastava-se em média trinta minutos. Porem a maior arma de artilharia criada durante a Segunda Guerra foi o Little David do Exército dos Estados Unidos, um morteiro de sitio de 91,44 cm, destinado a ataque de fortificações pesadas. Carregado pela boca, disparava um projétil de 1.650 kg até 10 km de distancia. Foi construído inicialmente para teste de penetrações para bombas usadas em aviões, mas a guerra acabou antes que ele pudesse ser posto em ação, terminando seus dias no Museu do Campo de Provas de Aberdeen.

O problema desses grandes canhões é que se leva muito tempo para serem embasados e deslocados, sendo preferível colocá-los na retaguarda, protegendo-os de uma rápida incursão inimiga antes que possam ser retirados. O outro problema tem a ver com os suprimentos, pois suas pesadas granadas não tinham como serem transportadas por terreno acidentado, tendo então que serem posicionados perto de terminais ferroviários.

Artilharia de Costa
A artilharia de costa tem um grande defeito, ser boa demais. Devido normalmente a sua alta eficiência, o inimigo prefere desfechar o ataque de modo a não se expor ao fogo dos canhões. De todas os milhares de peças embasadas pelo mundo um punhado delas chegou a entrar em ação. Um dos grandes problemas é que os canhões estão apontados para o mar, mas se o ataque vir por terra, torna tudo mais complicado. Mesmo assim houve casos em que a artilharia de costa cumpriu ser dever da melhor forma possível, mesmo tendo que apontar seus canhões em direção da terra, como em Cingapura ou Hong Kong, em ambos os casos foram disparados todas as granadas disponíveis e enquanto foi possível, deteve o avanço japonês. Corregidor é outro exemplo onde à artilharia de costa fez seu papel, impediu qualquer ataque japonês pelo setor sob sua responsabilidade. As forças japonesas que atacaram as ilhas Filipinas evitaram os pontos forte, subjugando primeiro todo o território para só depois se encarregar dos fortes que guardavam o mar.

Canhão sem recuo
Até mesmo o leigo em artilharia deve estar percebendo que uma das deficiências do canhão convencional é o peso que tem de ser arrastado além do cano e da culatra, na realidade, as partes responsáveis pelo disparo do projétil. Esse peso resulta da satisfação de duas exigências; primeira, dar ao canhão e ao suporte a capacidade adequada para resistir à locomoção, normalmente por terreno acidentado; segunda, torná-los resistente e pesado o suficiente para continuar estável durante o disparo e não se despedaçarem com o choque, isto é, a força do recuo.

Com o correr dos anos, grandes têm sido os avanços, a fim de reduzir o volume e melhorar a estabilidade, no desenvolvimento dos sistemas de recuo hidropneumáticos. Estes não eliminam totalmente o recuo, e tampouco absorvem por completo sua força, mas atuam como amortecedores de choque entre o canhão e sua carreta, transferindo a tensão do recuo de um modo mais suave e eliminando a violenta martelada que era normal antes que se aperfeiçoassem esses mecanismos. Outra faceta do problema do recuo consiste na necessidade de fazer um reparo bem pesado e dotado de uma flecha comprida, porque o acréscimo da massa e do efeito de alavanca do comprimento da flecha ajudam a manter a estabilidade do canhão durante o disparo, sendo este logo seguido de nova pontaria, e também que a guarnição fique perto dele; tudo isto contribui para maior cadência de tiro. É evidente que se fosse possível a eliminação total do recuo, o peso e as complicações do seu sistema seriam dispensados. A carreta ficaria muito menor e mais leve, o veiculo de reboque poderia ser menor e o canhão seria manobrado com mais facilidade. Uma das primeiras tentativas foi adicionar defletores instalados na boca do cano que forçavam os gases para trás. Esse mecanismo foi conhecido como freio de boca. Contudo os gases são empurrados quase que totalmente para trás, tornando desagradável e até insalubre a vida dos artilheiros. O primeiro canhão sem recuo foi inventado por um americano. Seu projeto parecia ridículo, pois constituía de um canhão com duas bocas uma apontada para frente e outra para trás, ambas disparavam um projétil de mesmo peso e velocidade (contrabala), fazendo que as forças se anulassem. Então os alemães aplicaram as leis de Newton, se fosse disparada uma contrabala com a metade do peso, mas com o dobro da velocidade, ter-se-ia o mesmo efeito, se continuarmos teremos um momento em que se dispararmos um fluxo de gás em alta velocidade, este compensaria o projétil principal anulando o recuo. Agora devida à ausência da tensão de recuo, a armação era feita quase que inteiramente de liga leve.

Continuando a série Artilharia, vamos ver aqui mais algumas armas das incontáveis que foram criadas para o serviço dos artilheiros. Seria impossível citar aqui todos os tipos e variações de armas que compõem a Artilharia, pois o texto seria enorme, mas vamos prosseguindo em nossa última parte.

A Munição.
Há quem defenda que o canhão não é mais que um meio de entrega ou transporte, e que a verdadeira arma é o projétil disparado por ele. Há dois tipos de projéteis. O sólido e a granada explosiva. O primeiro é sólido, maciço, rígido e depende do seu impacto para causar dano ao alvo. A granada é oca, contendo algum alto explosivo ou outra substância que produza o efeito tático desejado, por exemplo, produtos químicos que provocam fumaça, luminosos, gás, etc. Todo canhão foi originalmente projetado para atirarem granadas. Todo projeto inicial do canhão começa com elas, seu alcance e capacidade de destruição.

A granada básica aparenta ser um problema simples, sendo apenas um corpo de aço de tamanho adequado, cheio de explosivo e dotado de uma espoleta. Mas há complicações ocultas. O dispositivo tem de ser disparado de um canhão, o que representa uma aceleração de pelo menos 50 mil “g”, sendo assim precisa ser forte o bastante para não sofrer esmagamento, o explosivo tem que resistir a aceleração sem explodir, mas com sensibilidade necessária para detonar eficientemente no alvo e romper o projétil em grande número de fragmentos. Não esquecendo que tem que ser barata, de fabricação simples e passível de armazenagem durante muitos anos, sem perigo de deterioração. Um erro comum é dizer que quem esta perto de uma detonação de granada de alto explosivo é ferida por “shrapnel”. Isso não é verdade, pois “shrapnel” é um tipo especifico de granada, não é de alto explosivo, é oca e contem grande quantidade de balins (esferas) debaixo de uma carga de pólvora. A espoleta de tempo é armada para detonar em um determinado ponto no ar. É o mesmo efeito de uma espingarda de caça.

As espoletas são complexas, mas podemos considerá-las apenas como um dispositivo que assegura o funcionamento correto da granada. A maioria das granadas de alto explosivo é dotada de espoleta de impacto “percussão”, e quando a granada atinge o alvo, uma agulha penetra uma cápsula ou detonador, fazendo explodir o conteúdo. Há casos em que é conveniente fazer a granada explodir no ar, como no caso das antiaéreas, onde é fácil um tiro a uma distancia letal, mas pouco provável um tiro direto. Durante a Segunda Guerra, desenvolveu-se um tipo de espoleta de aproximação que “sente” a aproximação do alvo. Normalmente são operadas por radio ou por sensores fotoelétricos.

A granada é impelida até o alvo pela explosão, dentro da câmara do canhão, da cápsula ou da carga propelente. Em armas leves a carga fica dentro de cápsulas de metal. Já em armas pesadas usam-se cargas ensacadas, nas quais a pólvora sem fumaça, em um saco de tecido de seda. A linha divisória normal entre estojo e ensacadas é no calibre de 127 mm.

As bazucas, os Panzerfaust e o Piat utilizavam-se de projéteis de carga oca. O projétil de carga oca contem uma carga de alto explosivo com uma camisa de cobre perfilado na parte frontal e um “pára-brisa” aerodinâmico para dar-lhe a forma balística necessária. Quando a espoleta da base funciona, ao atingir o alvo, a camisa de cobre é deformada, para formar da carga um jato poderoso que penetra a blindagem do alvo e lança um fluxo de chamas e gás quente dentro do tanque.

O tanque.
Quando este fez sua estréia no campo de batalha em 1916, trouxe consigo um certo ar de invencibilidade que durante algum tempo teve o dom de afastar qualquer atitude de defesa diante dele. Houve exceções, como a famosa resistência de um solitário oficial alemão, em Flesquières, que, disparando um canhão de campanha com munição comum, causou uma verdadeira devastação entre os tanques ingleses. No período entre guerras surgiu o pequeno canhão de 20 mm Becker, que foi o primeiro semi-automático. A filosofia antitanque na década de 30 era dotar a infantaria de um pequeno canhão de fácil manejo. A campanha da França salientou as deficiências dos canhões pequenos contra os tanques mais modernos, seu sucesso era apenas parcial e dependia de elevada coragem e sangue frio por parte dos artilheiros, pois eles precisavam de muita calma para esperar até que os tanques se aproximassem o suficiente antes de atirar e acertar em cheio com o primeiro tiro.

Mas a batalha no terreno dos antitanque é um vaivém continuo, hoje o tanque reina com supremacia absoluta, amanhã o desenhista aparece com um canhão melhor e no dia seguinte, surge um tanque mais bem blindado, e assim por diante. Para superar os tanques, os projetistas de canhões precisavam fazer canhões mais pesados, disparando projéteis mais pesados a velocidades cad vez maiores e com uma munição que aumentasse a durabilidade do canhão.

Os canhões antitanque autopropulsados começaram a imperar perto do final da guerra. Principalmente pela facilidade de acompanhar os blindados, aos quais dava apoio. Outro motivo é que para se ter um canhão com capacidade de destruição dos pesados blindados, era impossível movê-los com força humana. Os americanos foram os que mais se interessaram por esse tipo de canhão. Um dos paises que mais se destacaram em canhões autopropulsados foram os Estados Unidos, um de seus melhores exemplares foi o M12, que era composto por um chassi de tanque M3 ou M4 modificado e um canhão antigo de 155 mm, em um habitáculo para os artilheiros aberto. Foi usado na conquista de Colônia. Um exemplo alemão que teve sucesso foi o Hummel, que era baseado no chassi do Panzer IV, seu problema foi não ter sido fabricado em quantidade suficiente, tendo seu batismo de fogo na Batalha de Kursk.

O Deserto. A guerra no deserto era “o paraíso do tático e o inferno do intendente”. É uma frase adequada, porem não exprime tudo. Embora os táticos desfrutassem de amplos espaços e o intendente sofresse com as longas linhas de suprimento, a guerra no deserto trouxe vários aprendizados até então ignorados. Um problema era comum a todos, a área, penetrava em tudo, danificando e fazendo com que a vida útil das peças diminuísse. Uma outra característica marcante eram as tênues linhas, às vezes pequenas unidades blindadas apareciam pela retaguarda atacando e devastando as unidades de artilharia. Com isso surgiu a necessidade de posicionar os canhões onde pudessem ser defendidos pela infantaria. Um momento culminante na guerra do deserto e para a Artilharia foi à barragem de 23 de outubro de 1942, quando o 8º Exército Inglês iniciou sua ofensiva. Foram usados 456 canhões na área do XXX Corpo.

Na floresta. No meio das arvores não da para puxar os canhões, não havia lugar para artilharia cerrada, muitas vezes nem se tinha espaço para desenvolver uma bateria corretamente. Não havia praticamente a possibilidade de localização por luz ou sonora, os observadores não conseguiam ver nada e o som era abafado. Por causa da vegetação fechada, a observação aérea também era dificultada. Diante de tudo isso o esforço da artilharia foi meritório. O exército japonês foi o que menos recorreu à artilharia. A principal característica dos nipônicos era a meticulosidade com que os artilheiros camuflavam seus canhões. Abrigos subterrâneos, bunkers, cavernas, uso de arbustos somado à camuflagem artificial, tudo isto contribuía para tornar o canhão japonês praticamente invisível até o momento em que atirava. E a menos que estivesse olhando para ele naquele momento, era possível que nem assim o descobrisse.

Com a escassez de canhões e munição, os japoneses recorriam a algumas artimanhas engenhosas para tentar impedir que os soldados aliados os descobrissem. Uma técnica observada era disparar fogo de enquadramento de um alvo com muita lentidão, às vezes demorando 15 minutos entre os disparos e, além disso, fazendo os tiros de dois canhões diferentes. Este tipo de disparo, entremeado de fogo ocasional de morteiro e rajadas de metralhadoras, ás vezes é irreconhecível como fogo de enquadramento ou localização, sendo simplesmente considerado como hostilização, porque não se distinguia qualquer padrão. Mas, se os artilheiros forem pacientes, podem conseguir um resultado seguro, que mais tarde representará uma rajada repentina bem contra o alvo e sem qualquer aviso prévio, no momento em que o ataque se inicia.

Outro truque também por eles muito empregado era disparar algumas granadas no momento exato em que os canhões aliados estavam atirando, sincronizando e apontando os disparos de modo a acertarem as linhas de infantaria aliadas no instante em que algumas granadas aliadas estivessem passando acima delas. Isto quase sempre provocava um grito da infantaria “Os desgraçados dos artilheiros estão atirando muito perto!”, bem como causavam baixas que de tal modo prejudicavam as relações dos integrantes das duas armas, que os pobres artilheiros às vezes eram proibidos de atirar perto das suas próprias tropas. Felizmente a artimanha acabou descoberta, mas, mesmo assim, demorou muito para que este truque deixasse de dar resultados.

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