Defesa Móvel e a Reconquista de Kharkov

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Defesa Móvel e a Reconquista de Kharkov

Mensagem por Winston Churchill em Seg Jul 08, 2013 9:36 pm

Por Oskar Hutier

Existem basicamente dois tipos de operações militares: defensivas e ofensivas. Embora as defensivas visem à manutenção e/ou posse de algo (uma cidade, estrada, colina. etc.), a constante evolução da guerra impôs também uma mudança no panorama geral da defesa. A tradicional defesa frontal e estática, que visava desgastar o inimigo pela usura, foi gradualmente perdendo terreno. Outros procedimentos, como a defesa em profundidade, foram utilizados, tentando minimizar os impactos que a tecnologia levou ao campo de batalha (foguetes, tanques, aviões, etc.) Mas mesmo a defesa em profundidade não pôde suplantar plenamente o desenvolvimento dos exércitos modernos.
O crescimento desproporcional do poder de fogo dos exércitos fez com a principal força motriz da defesa estática – o atrito – tornar-se custosa demais para os defensores. Assim como o desenvolvimento de forças moveis e altamente treinadas fez com que esse crescimento do poder de fogo encontrasse mãos capazes de empregá-lo. A manutenção de unidades altamente treinadas em uma defesa passiva, seria um completo desperdício de suas potencialidades pois, estaticamente, elas perderiam a maximização do fogo proporcionada pela manobra, assim como uma defesa passiva traria efeitos indesejáveis as forças morais de um exército. Logo, o conceito de defesa passiva acabou caindo em desuso. A defesa, em certos aspectos, hoje agrega mais aspectos ofensivos do que podemos previamente deduzir.
A defesa móvel baseia-se na maximização do poder de fogo das forças da defesa por meio tanto de defesa estática parcial (aproveitando-se das vantagens do terreno) como por meio da manobra tática das reservas, visando a destruição da massa principal das forças atacantes, por meio de um esforço de único flanco, ou até de duplo envolvimento, de forma que a iniciativa tático-estratégica não seja perdida.
Apesar de os grandes exemplos de sua aplicabilidade terem ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, o apogeu do conceito se deu durante a guerra fria, com a constante ameaça das forças do Pacto de Varsóvia manobrando nas fronteiras da Alemanha Ocidental. Extensos trabalhos foram feitos tentando solucionar a inferioridade numérica das forças da OTAN no Teatro de Operações Europeu frente às forças do Pacto de Varsóvia. Em destaque, o FM100-5 de 1976 previa os seguintes pontos:
* Reconhecimento do inimigo (tamanho da força agressora),
* Panorama geral de operações – visualização do campo de batalha, do esforço principal inimigo e a detecção de pontos débeis,
* Concentração (no tempo e lugares corretos),
* Batalha com forças combinadas.
* Exploração das vantagens da defesa (relevo, fortificações, e etc).
* Exploração das vantagens da defesa (relevo, fortificações, e etc).

Os aspectos morais.
O Marechal Foch profetizou em seu Les Principes de La Guerre:
“A vitoria é idêntica à superioridade moral do vencedor à depressão do vencido”
“A batalha é uma luta de duas vontades”
As potencialidades da defesa móvel não podem ser mensuradas apenas na guerra “fisica”. A perspectiva moral atinge diretamente nosso estudo.

Quando uma grande ofensiva é preparada, não só os aspectos logísticos, técnicos e operacionais são levados em conta. Uma importante vertente é aberta, a psicológica. Assim, como se prepara o combustível, a munição e os mantimentos, a preparação psicológica das unidades de combate é uma premissa absolutamente necessária e de valor inestimável. Ao longo da historia militar há incontáveis fatos acerca de tropas que em inferioridade numérica sobrepujaram inimigos superiores, unicamente por estarem num patamar moral superior.
Podemos, portanto, tomar desses fatos as seguintes lições:
Um exército na ofensiva não espera sofrer uma derrota (A vitoria é a premissa psicológica para as ações ofensivas),
Maurice Maigret em La guerre Psychologique profetizou:
“Ás vezes, ela [a guerra psicológica] se apresenta como um meio operacional supletivo da ação militar; outras vezes como uma categoria política e, no limite, como uma ciência da guerra total.”
Portanto, quando uma ação ofensiva, encontra imediatamente uma oposição móvel e ofensiva lhe caindo sobre os flancos e retaguarda, acaba recebendo não só seu impacto “físico” personificado pelo uso de armas combinadas, mas também recebe uma poderosa carga negativa psicológica.

A reconquista de Kharkov (1943)
Talvez não exista exemplo mais palpável do que representa a defesa móvel do que a reconquista da cidade soviética de Kharkov durante a Segunda Guerra Mundial, orquestrada pelo Marechal-de-Campo Erich von Manstein. Existiu uma opinião praticamente unânime por parte do oficialato germânico pós-SGM, de que o modelo operacional de Manstein em Kharkov deveria ter sido amplamente reproduzido, e que isso poderia ter multiplicado as chances alemãs de vitória no front leste.
Manstein, fazia parte da nova geração de generais alemães, fora o principal arquiteto do golpe de foice que nocauteou o exército francês numa campanha que durou seis semanas, mas que fora decidida em apenas duas. Manstein, até pelos comandos que exerceu (de Corpo de Infantaria na França, Corpo Panzer durante a Operação Barbarossa e de um exército que sitiou e venceu a fortaleza de Sebastopol) tinha completo domínio de todos os níveis da guerra moderna, tanto em aspectos tático-estratégicos como logísticos. Além disso, tinha especial talento para operações de grande envergadura.

Manstein recebeu um exercito em pedaços, unidades mal abastecidas, praticamente desprovidas de fortificações de campo, com unidades blindadas severamente desfalcadas. Em contrapartida, o moral soviético era altíssimo, eles haviam acabado de vencer o “invencivel” VI Exército de von Paulus nas ruínas de Stalingrado, e estavam re-posicionando suas unidades para o que chamavam de o “contra-ataque decisivo”.

A ofensiva soviética teve um grande êxito inicial. A cidade de Kharkov foi tomada no inicio de fevereiro e a despeito das ordens do Führer para que contra-atacasse imediatamente, Manstein jogou sua grande cartada, negando combate as grandes unidades soviéticas, se retirando gradualmente enquanto fustigava suas pontas de lança. Logo, o ímpeto da grande ofensiva soviética foi severamente reduzido. Manstein então planejou meticulosamente a completa aniquilação das forças vermelhas numa ofensiva limitada, diferente das que estavam sendo travadas no leste. Manstein pretendia ancorar seu flanco no rio Donetz, aproveitar a impulsão inicial da ofensiva e sobrepujar, por meio de um ataque de flanco, a grande superioridade numérica soviética, para então, a partir daí, numa batalha de manobras - onde o Exército Alemão era superior - aniquilar o numericamente superior Exercito Vermelho.

Vemos claramente os dois pontos inicias apontados pelo FM 100-5. Inicialmente Manstein nega combate aos soviéticos,e reconhece o tamanho de sua força bem como o eixo principal das operações inimigas. Enquanto suas forças se protegem mutuamente no flanco direito, ele reúne todas as suas reservas móveis para então, através do uso concentrado e combinado de suas forças, lançar-se em direção ao principal corpo de combate soviético, num golpe em forma de foice absolutamente impecável. Manstein escreveu:
“Senti uma forte tentação de caçar o inimigo através do rio congelado e lhe tomar a retaguarda a oeste de Kharkov. Para ter nossas mãos livres e avançar até o médio Don, sem perder tempo, era necessário primeiro destruir a ala sul do grupo inimigo em Kharkov, que estava fortificado em Berestovaya, ao sudoeste da cidade. Se isto podia ser feito em vista do iminente desfecho era duvidoso. Consequentemente o Grupo de Exércitos teria que se contentar inicialmente em buscar derrotar o inimigo em Kharkov, a oeste do Donetz.”
O grande contra-ataque teve inicio com o I Exército Panzer ocupando novamente as margens do rio Donetz, o que libertava o IV Exercito Panzer de Hoth para contra-atacar rumo norte, no intento não só de aliviar a pressão sobre o Kampfgruppe Kempf como de golpear o flanco exposto dos Exércitos Soviéticos. Manstein teve absoluto sucesso em todas as suas aspirações, tendo depois de libertado do Kampfgruppe Kempf o reunido em progressão semelhante ao do IV Exercito Panzer. A 13 de março Manstein profetizou: “A todo custo nossas forças devem impedir que Kharkov se converta numa segunda Stalingrado, onde todas as nossas forças de assalto estariam irremediavelmente comprometidas”. A 14 de março, Kharkov caiu sob o fogo do II SS Panzerkorps e o Kampfgruppe Kempf também recuperou Belgorod, o que praticamente encerrou a batalha. As frentes do Donetz e do Mius haviam se fundido numa frente única e sólida. Manstein, pela falta de cooperação do Grupo de Exércitos do Centro não pôde seguir em direção a saliente de Kursk, como ardorosamente ansiava, o que mais tarde mostrou ter sido um erro fatal.

A brilhante operação executada por Manstein mostrara ao Estado Maior Geral um novo tipo de conduta de operações, baseado não só na ação defensiva como ofensiva. Entretanto, esse brilho foi imediatamente ofuscado pela influência de Hitler e sua insistência na defesa fixa e frontal, num modelo arcaico que remontava dos primeiros anos da Grande Guerra, antes mesmo das reformas de Lossberg.
A grande maioria dos oficiais alemães julgava que se a ferramenta operacional criada por Manstein fosse adotada, o resultado da guerra poderia ter sido diferente. Quando questionado sobre uma possível possibilidade de vitoria alemã após a catástrofe de Stalingrado, Rundstedt foi taxativo:
“Creio que sim; isso se os comandantes operacionais tivessem tido liberdade para retrair quando e onde julgassem adequado, em vez de serem compelidos a manter posições por um tempo demasiadamente longo, como aconteceu inúmeras vezes em toda parte.”
Dittmar, outro comandante com experiência do front leste foi ainda mais além. Quando questionado, no pós-guerra, se a defesa móvel poderia ter constituído um divisor de águas na campanha do leste ele respondeu:

“Acredito que sim, e as vantagens da defesa móvel eram evidentes, só que nossos chefes não podiam empregá-la adequadamente por causa das objeções de Hitler. O Estado Maior não era autorizado a ordenar a construção de posições defensivas à retaguarda, ou mesmo a estudar planos para o caso de nossas tropas serem obrigadas recuar.”

Podemos atestar que a despeito do que informavam seus generais, a postura de Hitler em relação à flexibilização do sistema defensivo, conceituada por seus generais, se manteve rígida e inflexível, não tendo, portanto, alterado o curso da guerra. Porém, podemos salientar que posteriormente - durante a Guerra Fria, quando o mundo ocidental esteve à beira da aniquilação pelas tropas do Pacto de Varsóvia - o principio de defesa móvel conceituado pelos alemães ergueu-se como uma resposta clara e objetiva, de que os soviéticos não passariam sem pagar um pesado tributo em sangue.

Bibliografia:
MANSTEIN; Erich von – Lost Victories: "War Memoirs of Hitler's Most Brilliant General" (Zenith press, Minneapolis, 1958)
Móbile Defense: Extending The Doctrinal Continuum – Major of United States Infantry, G. L. Walters. (US. CSGC, Fort Leavenworth, 1994)
Field Marshal Erich von Manstein and the Operational Art at the Battle of Kharkov – Thomas A. Thompson (US. ARMY WAR COLLEGE, Carlisle, 2000)
O Outro Lado da Colina – Sir Basil Liddell Hart (Bibliex, Rio de Janeiro, 1980)
Estudos de Estratégia – Obino Lacerda Alvares (Bibliex, Rio de Janeiro, 1973)

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Re: Defesa Móvel e a Reconquista de Kharkov

Mensagem por Truscott em Seg Set 09, 2013 8:45 am

Há anos que eu pretendo fazer o wargame de Kharkov, mas tô sempre adiando...

Truscott.

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