Patrulha do Frio

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Patrulha do Frio

Mensagem por Dornberger em Seg Jun 03, 2013 3:04 pm


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Está escuro quando Jesper Olsen cai. Escuro e frio. No inverno do norte
da Groenlândia, não se vê nem um mísero raio de sol durante mais de
três meses. É uma noite longa e dura. A temperatura média é de -31oC. O
vento é brutal.

Jesper estava preparado para o clima, assim como para os cães indóceis,
o trenó sobrecarregado, o terreno acidentado e os esquis finos de cross
country. Estava preparado até para cair – uma precaução corriqueira. Só
não havia previsto que, quando despencasse pela encosta íngreme juncada
de pedras, sua faca escaparia da bainha de couro presa na cintura e
faria uma rotação muito inconveniente. Jesper aterrissa em cima dela. A
lâmina perfura sua coxa direita.

Seu parceiro, Rasmus Jørgensen, não vê o acidente. Segue um pouco à
frente, com a lanterna de cabeça cortando uma cunha na escuridão em meio
aos picos monolíticos e à pálida linha da costa. Antes de perder o
equilíbrio, Jesper estava atrás do pesado trenó de 13 cães, agarrado às
rédeas e empenhado em controlar a descida da matilha. Agora jaz
estatelado na tundra coberta de gelo, um rasgão medonho na calça de
esquiar e sangue escorrendo pela perna. Estão a 800 quilômetros ao norte
do círculo Ártico, em um dos mais hostis e inóspitos lugares da Terra.

O desejo de explorar a Groenlândia, que é um protetorado dinamarquês
desde 1721, nasceu em Jesper seis anos antes, quando ele era um sargento
de 23 anos da Guarda Real dinamarquesa e comandava soldados em três dos
quatro palácios da rainha da Dinamarca. Seu uniforme de oficial incluía
um enorme gorro de pele de urso e um paletó com botões de latão.

Mas não era essa a ambição de sua vida. O rapaz atlético de olhos
azul-claros e cabelo louro escuro ansiava pelo oposto de marchar pelas
ruas com um gorro vistoso. Queria aventura. “Gosto de desafios”, diz. Só
em 2008, depois de ter deixado a Guarda Real para ser policial em
Copenhague, Jesper criou coragem para se candidatar a uma unidade das
forças de elite, famosas na Dinamarca por levar seus soldados aos
limites de privação e resistência mental. Ele decidiu se alistar na
Sirius.

Por mais de 60 anos, a Sirius está incumbida de patrulhar os 14 mil
quilômetros da costa nordeste da Groenlândia. A equipe de 12 homens faz a
ronda em cada centímetro do tortuoso e gretado litoral do território. O
objetivo é reafirmar a soberania dinamarquesa, amparada em convenções
internacionais. A Sirius é a única patrulha militar do mundo com trenós
de cães. O trabalho, mal remunerado e sem férias, requer viajar com um
parceiro e uma equipagem de cães por 26 meses e mais de 8 mil
quilômetros. Lesões são inevitáveis, assim como fome, exaustão e
ulcerações pelo frio. Ursos-polares espreitam os patrulheiros. Não há
chance de visitar a família ou os amigos, muito menos de sair com
garotas. Nem árvores eles veem. É um dos empregos mais difíceis que
alguém poderia desejar.

Jesper passou em uma bateria de testes físicos e psicológicos que
peneira os candidatos à Sirius. Apenas seis pessoas são escolhidas por
ano para substituir os patrulheiros que saem. As mulheres podem
candidatar-se, mas até hoje nenhuma o fez. E é preciso ter menos de 30
anos.

A primeira tentativa de Jesper acabou sendo frustrada. Semanas antes de
os recrutas da Sirius partirem para um treinamento em sobrevivência na
natureza, Jesper recebeu a notícia: fora excluído no último corte. Ficou
arrasado. “Não quis mais saber de me inscrever”, lembra-se ele.
Jesper voltou para a polícia, mas não conseguiu parar de pensar na
beleza rude e no supremo desafio da natureza no extremo norte. O
ambiente era favorável: seus pais aprovavam suas aspirações; namorada
ele não tinha. Por isso, mudou de ideia e tentou de novo, sujeitando-se
aos oito meses do regime de treinamento. Aprendeu de tudo: meteorologia,
técnicas de caça, medicina veterinária. Memorizou o desenho de mais de
600 fiordes e promontórios da costa groenlandesa para o caso de perder
seu mapa.

Dessa vez Jesper escapou do corte. Como parte do treinamento final,
pulou em água gelada para simular um desastre de trenó e viveu por cinco
dias com apenas uma sacola de suprimentos de emergência. Dormiu em uma
caverna de neve que escavou com uma caneca de estanho e, para comer,
caçou lebres do Ártico ou bois-almiscarados. Por fim, em julho de 2010,
apresentouse para o serviço na base da Sirius no nordeste da Groenlândia
– um conjunto de construções atarracadas em uma ponta de pedra, ligadas
por cordas para orientar os usuários em caso de nevascas cegantes. Era
enfim um patrulheiro.

Jasper Encontrou um parceiro ideal em um ex-sargento da Força Aérea, na
função há quase dois anos: Rasmus Jørgensen, de 28 anos, físico de
halterofilista, barba ruiva desgrenhada e serenidade de um Buda. Na
marcenaria da Sirius, os dois construíram um trenó de 4 metros com
patins de náilon e tábuas unidas com cordões em vez de pregos para
máxima flexibilidade. Batizaram-no de Sol Negro. Trabalharam com seus
cães até se sentirem uma unidade coesa.

Em meados de outubro, quando o mar congela – viajar de trenó ladeando a
costa pode ser mais eficiente –, os dois carregaram o Sol Negro com 370
quilos de provisões e deixaram a base, seguindo uma rota antiga traçada
por oficiais militares dinamarqueses. Agora, ao lado de outras cinco
equipes, Rasmus e Jesper atuam como os únicos patrulheiros do Parque
Nacional do Nordeste da Groenlândia. Oferecem apoio a expedições
científicas e esportivas no maior parque do mundo, lar de grandes
rebanhos de bois-almiscarados e centenas de ursos-polares.

Porém, já no quarto dia dessa sua primeira viagem, Jesper fere a perna.
Deitado na neve, tomado pela dor, ele espera que seu sonho de ser
patrulheiro da Sirius não tenha malogrado logo agora que está começando.
Momentos depois, se convence de que a lesão é suportável. “Devo ter
caído em cima de alguma pedra”, pensa. Durante seu intenso treinamento,
ele aprendera a permanecer calmo nas piores situações e fora doutrinado
no lema da Sirius: no gelo, sempre que possível, é melhor continuar em
movimento.

Assim, sem dar ao menos uma espiada no ferimento, sem notar o corte na
calça nem o sangue pingando, Jesper se levanta. Pega sua faca. Rasmus e
ele trocam só umas poucas palavras: “Tudo bem?” “Sim.” Cada um pega uma
das cordas presas ao trenó e se firma nos esquis. “Ya!”, grita Rasmus.
Os cães esticam suas linhas com um estalo, e os homens partem em um
arranco.

Viajar de trenó é atuar na intersecção do caos com a habilidade. Para
manter a matilha em constante movimento, Jesper e Ramus interagem o
tempo todo com os cães: assobiam, ralham, elogiam, persuadem. Eles
atravessam uma península chamada Hochstetter Forland; sacolejam sobre
rochas, arfam nas subidas e escorregam nas descidas. Uma névoa de
respiração congelada de cães e seres humanos forma uma esteira de vapor
atrás deles. Montanhas pontudas como nadadeiras de tubarão assomam no
mar congelado. Icebergs monumentais estacionados na costa fazem pensar
em navios de guerra caiados.

A velocidade normal de um trenó não chega a 8 quilômetros por hora.
Quando Jesper caiu, eles estavam a pouco mais da metade do objetivo
diário de 34 quilômetros, parte da expedição de um mês e meio que
descreverá um laço de 1 100 quilômetros a norte da Sirius: a mais curta
das três viagens planejadas para este ano.

Um dia de viagem de trenó é trabalho incessante e absorvente. Jesper
nem tem chance de se preocupar com sua perna latejante. Parar para
almoço, nem pensar. Os homens tomam uns goles de água; os cães lambem a
neve. Se a equipe não estiver sincronizada, um trenó da Sirius ficaria
parecido com um corpo dotado de 13 mentes. Os cães, atrelados em pares
em uma linha comprida, às vezes empacam e se deitam. Há brigas, ciúme,
interesses amorosos – a matilha de Jesper e Rasmus tem duas fêmeas. De
maneira harmoniosa, os cães podem trabalhar em conjunto e no minuto
seguinte se transformar em uma bola rosnante de pelos voando para todo
lado, salpicando de sangue vivo a neve. “Eu me lembro dos meus tempos na
polícia quando acontecem esses pegas”, conta Jesper. “A gente precisa
entrar na confusão e separar os cães.”

Nessa era de modernos veículos blindados Humvee e tanques Abram, ainda
não inventaram nada melhor que o trenó de cães para atravessar longas
distâncias na Groenlândia, onde uma pane de motor pode ser letal.
Numerosas vezes a vida de patrulheiros foi salva pelos cães. As viagens
durante as noites intermináveis, sobretudo na neblina, são feitas meio
às cegas. Os cães param de repente na borda de precipícios e se recusam a
avançar, mesmo quando comandados. Também emitem um som específico
quando farejam ursos-polares, um rosnado sibilante que alerta os
patrulheiros para o perigo.

Embora Jesper e Rasmus estejam na primeira semana de sua viagem
inaugural, já concordaram com um estilo particular. Alguns pares da
Sirius preferem uma viagem leve e rápida: têm fobia de peso, cortam até
as etiquetas das camisetas e o cabo das escovas de dente, a ração e o
combustível para os fogareiros. Jesper e Rasmus adotaram o estilo lento e
agasalhado: trouxeram todas as roupas que desejavam e nunca pensaram em
se privar de uma refeição quente. Seu lema, confessa Rasmus, é “jamais
ficar sem combustível”.

Assim, não há pressa em sua travessia de Hochstetter Forland. Paciência
e precisão importam mais que rapidez. Qualquer erro de cálculo no
extremo norte pode ser perigoso: largue as luvas por um instante no
lugar errado e o vento logo desaparece com elas. “Quem não faz tudo
certo é punido”, diz Rasmus. Diante de tanta cautela, a única fatalidade
na história da Sirius aconteceu em 1968, quando um patrulheiro acabou
separado de seu parceiro em uma viagem de treinamento, perdeu-se em um
turbilhão de neve e morreu sozinho na tempestade.

No fim do dia, a dupla para o trenó e inicia uma rotina coreografada
com precisão. Sob as luzes verdes e rosadas da aurora boreal, armam a
barraca – algumas noites eles acampam, outras dormem em cabanas
espalhadas pela costa – e abrem os sacos de dormir de isolamento
ultrarreforçado dentro do abrigo bem ventilado. Para melhorar o
aquecimento, Jesper e Rasmus gostam de acender três fogareiros ao mesmo
tempo.

Rasmus prende os cães em estacas, a distâncias suficientes para não
terem contato entre si. Depois passa algum tempo com cada animal. “Eles
se tornam a nossa família”, diz Jesper. Rasmus dá um abraço de urso em
seu altivo líder de matilha, Johan; na brincalhona fêmea Sally; no
encrenqueiro-mor, Indy; e na lenda da matilha, Armstrong, em seu décimo
ano de puxador de trenó – o recordista da Sirius, com o dobro de tempo
de serviço que a maioria dos cães.

Armstrong já puxou trenó por no mínimo 40,2 mil quilômetros, mais que
uma volta em torno do equador. Rasmus sabe que o cão está no fim da
carreira. Não há lugar na base da Sirius para animais aposentados. E
eles servem de bicho de estimação tanto quanto um lobo: não podem ser
adotados. Têm de ser sacrificados, pelos patrulheiros, com um tiro. Os
dois garantem: essa é a parte mais difícil do trabalho.

Dentro da barraca, os fogareiros a todo vapor, Jesper e Rasmus enfim
descongelam. A -40ºC, materiais como o plástico se tornam quebradiços
como vidro. Se esfriar ainda mais, os cães sofrem e a neve afiada fere
suas patas. E, a -55oC, não tem jeito: é preciso parar e acampar.

O jantar é um cozido, misto de sopa de tomate, macarrão, queijo cremoso
e minissalsichas enlatadas. Não basta para repor as calorias gastas.
Alguns patrulheiros perdem até 14 quilos por inverno. O relacionamento
entre esses homens, que durante boa parte do ano não veem outros seres
humanos, nem sempre é amigável. Mas, uma vez no gelo, não existe opção
de divórcio.

Jesper e Rasmus harmonizam bem. O mais próximo que já chegaram de uma
desavença foi por causa do cachimbo. Rasmus, seguindo uma tradição da
Sirius, aprecia fumar à noite. Mas Jesper não suporta o cheiro e a
fumaça do tabaco.

Enquanto preparam o cozido, Jesper enfim tem tempo para examinar seu
ferimento. Tira a calça com cuidado, retorce o corpo e só então vê o
corte profundo na perna e o sangue, que continua a gotejar. Deduz então
que caiu em cima da faca. Ele não se abala. Afinal, é um patrulheiro da
Sirius. Pega o estojo de primeiros socorros. Limpa o sangue. Faz um
curativo.
--
FONTE: National Geographic
--
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