As Guerras Hussitas

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As Guerras Hussitas

Mensagem por Clifford Carwood Lipton em Qui Maio 23, 2013 5:47 am


É fácil ser enganado pelos melodramas da revolução. Embora seja verdade que a história se move por saltos em seus pontos críticos quando quantidade se transforma em qualidade, como turbinas movidas a vapor quando a água passa para o estado gasoso. Não é necessário ser conservador para perceber que as mudanças econômicas fundamentais levam muito tempo até serem processadas e implementadas, tais mudanças sofrem a resistência de uma massa inerte. A Rebelião dos Camponeses da Inglaterra ocorreu em 1381 na forma de uma clara reivindicação: a abolição da economia feudal. Trezentos anos depois, com a ascensão de William de Orange ao trono, ocorre um evento relativamente pacífico que os ingleses corretamente chamam de a Grande Revolução, cujo elemento mais importante é a última pá de cal em cima do túmulo da economia feudal. Mesmo assim, alguns ritos e relíquias feudais sem importância ainda sobreviveram àquela época..

Não obstante, a despeito da profunda crise econômica, política, e religiosa, por toda parte da Europa ao término do décimo quarto século, o feudalismo permanecia intacto, íntegro, tido como um sistema viável e apropriado à sociedade que o demolira. Isso é mais aparente na crise da Igreja. As relações econômicas entre os leigos já estava mudando, mas o comportamento da Igreja continuou puramente feudal e suas propriedades representavam uma grande massa obstrutiva de capital congelando o desenvolvimento da nova economia. A Igreja simplesmente cessara de ser a própria expressão religiosa da sociedade, enquanto que os hereges, anteriormente confinados e isolados — com exceção de Cathari na Provença — passaram a pulular por toda parte. Uma convulsão semiconsciente tomou conta de quase todo mundo. Na medida em que a insuficiência e a corrupção da Igreja chegava ao conhecimento de todos, a revolta se generalizava ainda mais.

Em nenhum outro lugar isso foi mais verdadeiro do que na Boêmia. Nos tempos modernos, como parte do Império Austrohúngaro, e depois Czechoslovakia, a Boêmia nunca exerceu um papel central na história da Europa. Mas não foi assim no final da Idade Média. O reinado da Boêmia destacava-se como o primeiro dos eleitores do Santo Império Romano. O Rei Wenceslaus IV, Imperador do Santo Império Romano, juntamente com sua família exerceu uma posição chave, situando-se entre os dois ou três mais importantes núcleos de decisão de toda Europa. Seu irmão Sigismund era Rei da Hungria. A Universidade de Praga, fundada em 1348, ainda era a única universidade no império, e sua influência se esparramou ao longo de toda a Europa Central e das regiões fronteiriças ao leste.

Desde a missão dos santos Cyril e Methodius em 862 na Morávia até os primeiros anos do século X a Boêmia teve como religião a ortodoxia grega. Nessa época o Rei Vaclav (São Wenceslaus) implantou o catolicismo da Igreja Romana. No século XIV a Boêmia incluía a Morávia, Silésia, a alta e baixa Lusátia, e se constituía no poder dominante da Europa Central. O grosso da população era eslava — a minoria checa — mas a classe governante era geralmente germânica. Haviam bases alemãs espalhadas por todo país, quase todas as regiões fronteiriças ao norte eram controladas pelos alemães. A Igreja era uma das mais ricas e corruptas da Europa. Mais da metade das terras pertencia à hierarquia e ordens religiosas. Os bispos e poderosos abades viviam a luxúria dos senhores seculares. A maioria deles eram alemães, ao passo que o baixo clero era geralmente eslavo; freqüentemente as duas classes não falavam o mesmo idioma.

Por ser base do império, a Boêmia tornou-se palco da intriga e da corrupção resultante do conflito entre o imperador e o papa. A classe alta era extremamente rica. Antes da descoberta da América as minas da Boêmia eram a principal fonte européia de prata. Em grau menor produzia ouro e cobre. A maior parte dessa riqueza era distribuída de forma desigual, concentrando-se no topo das classes altas, enquanto que na base as pessoas comuns viviam em uma economia camponesa, numa condição ligeiramente melhor que seus companheiros da Polônia e da Rússia Branca.

Wenceslaus IV envolveu-se em uma disputa com os eleitores e grandes senhores do império, até que finalmente foi deposto. Ele recusou aceitar a eleição de Rupert, Elector Palatine, até que finalmente cedeu, consentindo o cargo ao irmão dele, Sigismund, Rei da Hungria. Depois disso entrou em conflito com os senhores seculares e clericais da Boêmia. O papado, recém mudado de Avignon para Roma, quase entrou em cisma, os franceses e espanhóis que apoiavam Clemente VII retornaram para Avignon; a Inglaterra e o império, incluindo a Boêmia, e o norte e centro da Itália ficaram sob o controle de Urbano VI. Seus protetores reais não se mostraram muito generosos com dinheiro e ambos os papados quase entraram em falência, sendo forçados a fazer uso de tudo que estava a seu alcance, especialmente a venda de indulgências, para levantar dinheiro. Um poderoso movimento entre os teólogos da Europa, conduzido por Jean Gerson, Chanceler da Universidade de Paris, Pierre Cardinal d’Ailly, até mesmo incluindo eventualmente a maioria dos cardeais, começou a agitar por uma solução do problema via um concilio geral de toda Igreja Católica Romana. O Concílio de Pisa em 1409 elegeu Alexandre V, mas Benedito XIII em Avignon and Gregório XII em Roma recusaram-se a renunciar, assim haviam três papas. Quando Alexandre morreu dez meses depois, Baldassare Cossa, leigo, e pirata aposentado, foi coroado como João XXIII (após uma rápida ordenação como padre na noite anterior) e, sob a proteção do Imperador Sigismund, que imediatamente envolveu a Itália em contínuas guerras, que resultaram em novas vendas de indulgências para financiar suas cruzadas.

Nesse momento, após um longo período de maturação, a explosiva situação na Boêmia vem à tona. O Imperador Carlos IV e Wenceslaus incentivaram um certo grau de liberdade religiosa e anti-papalismo na Boêmia. A Inquisição foi mantida fora do país fazendo com que um número de seguidores de Wycliffe e Lollard imigrassem da Inglaterra, Waldenses, Lombardia, Jura, e dos Alpes, para a Boêmia. O rei estabeleceu em Praga uma capela para a pregação popular, diretamente dependente de seu patrocínio, e independente do arcebispo ou de qualquer ordem monástica. A Capela de Belém onde os sermões eram lidos em checo e latim, e onde, naquele tempo, o Rei Wenceslaus e a Rainha Sofia usualmente assistiam aos serviços preferindo-os à catedral. Houve uma sucessão de pregadores reformistas ao longo de uma geração, em grande parte sob a influência de Wycliffe, a dissensão popular na Boêmia desenvolveu-se bem longe da esquerda. A rejeição às proclamações papais, transubstanciação, batismo infantil, comunhão em uma espécie de laicidade, e denúncias de simonia, nepotismo, e luxúria da Igreja eram muito comuns.

Em 1402 João Hus foi designado reitor da Universidade de Praga. Antes desse tempo ele fora decano da faculdade de filosofia e um pastor de fama na Capela de Belém checa. Considerando as lutas religiosas que maturavam na Boêmia ele não estava ainda nem no meio do caminho, era um conservador. Embora na maioria dos casos discordasse de Wycliffe, foi favorável ao direito de expressão dos seus seguidores, tanto que traduziu o Trialogu. de Wycliffe. Wycliffe era estudante e teólogo, Hus era pastor e pregador. Seus próprios escritos foram, considerando o tumulto teológico e a profunda crise da Igreja, surpreendentemente ortodoxos. Durante os próximos cinco anos ele mergulhou em uma quase contínua dificuldade com o establishment eclesiástico, não por causa de alguma heresia teológica (tais idéias nem passavam pela cabeça do arcebispo que tinha sido soldado antes de ocupar o cargo), mas por suas denúncias públicas dos abusos da Igreja.

Durante as preparações do concilio ecumênico para evitar um grande cisma, elegeram apenas um papa, e reformador da Igreja, o Rei Wenceslaus. Hus, o clero checo, e o povo permaneceram neutros, mas a hierarquia alemã apoiou Gregório XII. No conflito resultante o rei emitiu um édito que dava três votos aos boêmios e apenas um aos bávaros, saxões e poloneses, combinados, uma reversão da ordem previamente estabelecida pela administração da universidade. O arcebispo atacou imediatamente pedindo ao Papa Alexandre V a condenação dos Lollardry e a proibição de todos os livros de Wycliffe, pediu também a emissão de uma bula papal proibindo as pregações em todas as capelas independentes.

Hus continuou pregando e foi excomungado pelo arcebispo, que apelou ao novo papa, João XXIII, um dos mais corruptos e depravados da história do papado. Papa João XXIII não apenas apoiou o arcebispo como colocou a cidade de Praga sob intervenção enquanto Hus continuasse pregando. Ao mesmo tempo o papa inundou a Boêmia com vendedores de indulgências para financiar sua cruzada contra o Rei Ladislaus de Nápoles. Hus e os reformadores mais radicais denunciaram a venda de indulgências. A situação de Hus em Praga ficou de tal forma insustentável que ele teve que se exilar em uma zona rural perto dali onde, mais tarde, a comunidade revolucionária de Tabor seria estabelecida. Lá ele permaneceu dois anos escrevendo, e publicou sua principal obra, De Ecclesia.

Em 1414 o Concílio recém convocado convidou Hus a vir e se defender das acusações de heresia lançadas contra ele pela facção do arcebispo. O Imperador Sigismund deu-lhe salvo-conduto, prometendo que qualquer que fosse o julgamento do Concílio, lhe permitiriam voltar seguramente à Boêmia onde, se culpado de heresia, ficaria sob a jurisdição do Rei Wenceslaus. Tratava-se de uma armadilha para atraí-lo até Constance. Logo após sua chegada João XXIII designou uma comissão para examinar seus documentos. O salvo-conduto foi cancelado pelo imperador. Hus foi aprisionado. Era o início de um agonizante e doloroso processo teológico.

Hus foi acusado primeiramente de propagar uma longa lista de doutrinas de Wycliffe e Waldensio, a maioria das quais ele negou. A lista foi mudada; e embora ele novamente negasse que defendia a maioria daquelas doutrinas, lhe exigiram que abjurasse a todas elas.

Ele recusou abjurar aquelas doutrinas que nunca tinha sustentado. Finalmente uma nova lista, boa parte retirada de De Ecclesia, foi submetida a ele. A maioria delas foi interpretada por ele de forma ortodoxa, mas sua interpretação foi rejeitada. Os itens mais importantes foram aqueles em que ele condena a corrupção, o abuso, e o despotismo da Igreja, negando a autoridade tanto do papa como dos maus governantes seculares.

Seus principais promotores foram Jean Gerson e Pierre d’Ailly, que foram impiedosos em seus ataques sobre ele, essas mesmas pessoas, durante as sessões desse Concílio, tinham ajudado a depor João XXIII por simonia, heresia, fornicação, e pederastia. O julgamento foi marcado por uma incrível desordem e abuso por parte dos santos padres participantes da assembléia do Concílio. Na maior parte do tempo Hus não pode ser ouvido, suas respostas seriam dadas por escrito depois das sessões. Após sua condenação final ele parecia incapaz de acreditar na injustiça ultrajante dos procedimentos e ainda estava redigindo uma petição para se defender quando foi condenado cerimonialmente, suas vestes sacerdotais foram retiradas, foi cassado em seus direitos civis, e condenado por traição ao imperador, e conduzido para fora para ser queimado na fogueira.

Além de ser o primeiro, Hus foi sem dúvida o mais nobre de todos os grandes reformadores. Ele também foi o mais conservador. Nunca passou pela sua cabeça fundar uma seita. Ele apenas desejava reformar a Igreja sem alterar sua estrutura ou a base de sua teologia. As idéias que ele realmente defendeu, e até mesmo algumas idéias falsamente atribuídas a ele, pouco diferiam das doutrinas e reformas propostas pelo primeiro Concílio Vaticano que muitos esperavam reabilitar a Igreja, mas que, devido à pressão da Cúria papal, recusou até mesmo de levar esse assunto em consideração.

Hus também diferia muito pouco de Gerson e d’Ailly, mas aquele pouco foi importante. Hus baseava-se em sua consciência. Ele recusava negar aquilo que acreditava ser verdade, ele recusava mentir, ou confessar a propagação de idéias que nunca defendera. Gerson e d’Ailly representavam a autoridade. Eles queriam sua submissão independente do julgamento. A obediência para eles era mais importante do que a verdade. Naturalmente, isso significa que eles acreditavam que a Igreja estava fundada na obediência e que a verdade vinha depois. Em certo sentido eles estavam certos. O argumento de George Bernard Shaw em seu prefácio a Saint Joan está correto, embora seja mais aplicável a Hus do que para Joana d’Arc. Embora os maiores teólogos morais da Igreja Católica Romana sempre dissessem que a consciência era primária, isso nunca foi colocado em prática. São João, João Hus, São Thomas More, todos morreram pelas suas consciências, embora a consciência de More preferisse a autoridade do papa à autoridade do Rei Henry. Uma estrutura completamente autoritária requer obediência, aqui não se trata de uma escolha da vontade individual que segue as ordens da consciência, mas a pura e simples obediência a ordens externas. Se a santidade da individualidade da alma e a primazia de sua vontade fosse transformada no fundamento da ação moral, as estruturas autoritárias eventualmente desabariam.

Hus foi um homem de centro, dificilmente pode ser considerado como um radical, e muito menos como comunista, mas com os preparativos de sua morte em Constance, a Boêmia levantou-se em revolta, primeiramente contra a traição do imperador e a injustiça do Concílio e eventualmente contra a Igreja, o império, e contra a própria civilização medieval. A morte desse homem consciencioso precipitou a primeira revolução nacional na história Ocidental.

Quando as notícias da execução de Hus alcançaram Praga, a reforma e o desassossego se transformaram em revolução. Nobres, reis, rainhas, pessoas comuns, eslavos e muitos alemães, todos eram unânimes em condenar o ato do Conselho e a deslealdade do Imperador Sigismund. Os nobres tinham anteriormente redigido um pedido pela libertação de Hus, e depois de sua execução quatrocentos e cinqüenta e dois nobres de todas as partes da Boêmia e da Moravia se juntaram em um congresso de emergência em resposta à condenação de Hus pelo Concílio. Eles próprios foram duramente condenados pelo Concílio pela prática Boêmia de comungar com leigos servindo o pão e o vinho nas cerimonias religiosas. Eles recusaram reconhecer quaisquer dos decretos do Concílio. Recusaram obedecer o novo papa a menos que ele fosse um homem de qualidade moral e agisse de acordo com a vontade de Deus. Uma recusa que se estendeu a toda a hierarquia. As decisões teológicas passaram a ser tomadas na Universidade de Praga e estabeleceram a livre pregação em seus territórios. O Concílio respondeu mandando Jerome, um colaborador de Hus, para a fogueira. Jerome já havia abjurado anteriormente, mas movido pelo martírio de Hus, retratou sua abjuração e convocou todos os signatários do manifesto dos nobres a condenar o rei, a rainha, e os principais da universidade de Constance, por heresia.

Com a bênção do Concílio, Sigismund organizou um exército para invadir a Boêmia. O Concílio se desintegrou em abril de 1418 sem abarcar outras questões que não fossem excomunhões e interdições. Em 1419, o Rei Wenceslaus tentou restaurar o Concílio para que continuasse seus ofícios na Igreja e na Universidade, agregando membros anti-hussitas do conselho da cidade. Com a população revoltosa mantida fora da praça da cidade, os oponentes passaram a atirar pedras. Sob a liderança de Jan Zizka, os hussitas invadiram a praça da cidade, pegaram o burgomestre juntamente com vários membros do conselho e os lançaram pela janela, sendo feitos em pedaços pelas ruas. Quando as notícias chegaram ao Rei Wenceslaus ele foi tomado por um ataque apoplético morrendo alguns dias depois.

A primeira defenestração de Praga marcou o começo da guerra aberta. Os alemães e membros do concilio, normalmente os mesmos, foram expulsos de suas propriedades e ofícios por toda a Boêmia. Houve uma breve luta em Praga entre o pequeno exército de mercenários estrangeiros leais à rainha e os hussitas conduzidos por Zizka que capturaram o castelo Vysehrad que dominava a cidade. Os nobres organizaram uma trégua. Os cidadãos restabeleceram o castelo. Zizka juntamente com os reformadores mais radicais deixaram Praga em direção a Pilsen, o centro do poder alemão daquela região. Sem conseguir tomar Pilsen, seguiram em direção ao sul, estabelecendo uma comunidade, à qual deram o nome de Tabor, a colina da Transfiguração de Cristo. Os exércitos da Cruzada papal invadiram a Boêmia e a Moravia vindos de várias direções e em 30 de junho de 1420, efetuaram um cerco à Praga. Todos os partidários hussitas se reuniram em conselho e apresentaram quatro exigências ao papa, que posteriormente passaram a ser conhecidas como os Artigos de Praga, um programa mínimo que permaneceu inegociável ao longo das guerras hussitas, mas que foi adotado quinze anos depois.

A palavra de Deus será pregada e proclamada livremente pelo reino da Boêmia pelos pregadores de Deus.

II. O sacramento da santa Eucaristia será administrada livremente tanto na forma do pão como do vinho, para todos os crentes fiéis que não estiverem em pecado, conforme instituído pela palavra de Nosso Salvador.

III. O poder secular sobre as riquezas e bens mundanos em posse do clero contraria os ensinamentos de Cristo prejudicando seu ofício e favorecendo o braço secular, será tomado [do clero] que deverá se restringir aos preceitos evangélicos e à vida apostólica de Cristo e seus discípulos.

IV. Todo pecado mortal, especialmente pecados públicos e outros contrários à lei de Deus devem em todos os aspectos da vida ser própria e razoavelmente abandonados e rechaçados por aqueles que os praticam. Incluindo fornicação, assassínio, roubo, usura, maledicência, superstição. Quanto ao clero, os encarregados dos serviços cerimoniais, os executores dos serviços sacerdotais, devem se livrar de toda imoralidade, e de todo comportamento profano e contencioso.

Exceto para aquele pequeno número de pessoas que não acreditavam no sacramento da Eucaristia, estes pontos representaram um programa mínimo no qual todos poderiam concordar; esse programa consta como o mais antigo documento nos movimentos de dissidência na Europa Ocidental, sendo comum a praticamente todos eles. Esse programa foi integralmente adotado pelos reformadores da ala direitista dos reformadores da Boêmia, que depositaram uma especial ênfase ao direito do leigo à comunhão dupla (no vinho e no pão) e que dali para a frente passaram a ser conhecidos como utraquistos (ou “ambos-istos”) ou calixtines (pelo cálice). A grande importância dessa exigência está ligada à herança dos primeiros dias do cristianismo na Boêmia que fora evangelizada por missionários ortodoxos gregos, e como os ortodoxos praticavam a comunhão dupla, talvez ela nunca tenha sido completamente abandonada. Não havia nada nessas exigências que fosse teologicamente incompatível com a mais rígida ortodoxia católica romana. Mas o terceiro e quarto ponto eram totalmente incompatíveis com sua prática, atingindo em cheio todas as igrejas estabelecidas. Ali também estava implícita a doutrina herética de que a obediência não é devida ao clero imoral e da invalidade de seus sacramentos; embora esta convicção não conste ao pé da letra.

Os emissários do papa e o imperador recusaram até mesmo de discutir os assuntos dos Artigos de Praga e continuaram com o cerco. Zizka venceu e massacrou completamente o exército adversário em uma grande batalha. Diante daquilo as forças papais e imperiais passaram a invadir continuamente todo o pais, e em cada uma destas invasões foram derrotados com grande matança, exceto quando seus exércitos recuavam e corriam sem lutar.

Freqüentemente é dito que foi a Revolução Francesa que inventou o exército nacional, o levée en masse de todo um povo. Seu verdadeiro inventor foi Jan Zizka. Embora os taborites formassem o núcleo de uma permanente força de luta, cada cruzada do imperador e do papa reunia uma grande maioria de checos. Zizka introduziu métodos notavelmente modernos de combate que propiciavam um elevado poder de fogo, o exército taborite foi o primeiro a usar sistematicamente a artilharia como principal braço tático. As tentativas de invasão tiveram como resposta uma profunda contra-invasão no território inimigo, desde o princípio a pilhagem exerceu uma parte importante nos suprimentos de Tabor. Zizka nunca pôde controlar completamente as minas de propriedade alemã, ou a cidade de Pilsen que permaneceu como reduto romano. Inicialmente, a maioria dos trabalhadores eslavos que se levantaram em revolta foram derrotados por mercenários alemães. Em Kutna Hora dezesseis mil pregadores juntamente com seus seguidores foram mortos e lançados nas minas.

Zizka iniciou sua carreira cego de um olho e incidentalmente uma flecha cegou seu outro olho. Ele estava completamente cego quanto travou suas últimas batalhas. Ele morreu em 1424 de uma infecção na véspera de uma conquista planejada da Morávia e Silésia. Sua vaga foi ocupada por Procopius que derrotou os alemães em duas grandes batalhas em 1427, os exércitos da Boêmia se tornaram o terror da Áustria, Hungria, Silésia, Saxônia, Brandenburgo, Palatino, e Francônia.

Os exércitos taborites simplesmente cessaram de invadir território inimigo e passaram a conquistá-los, ou seja, deixar guarnições nas cidades e castelos que capitularam. A Boêmia revolucionária ameaçava controlar toda Europa Central. O Papa Martin V convocou um conselho geral em Basel no ano de 1431 para lançar outra Cruzada, que novamente amargou uma derrota opressiva. Os emissários do papa, o imperador, e o conselho iniciaram negociações secretas com os utraquistos, que em nenhum aspecto eram revolucionários no sentido econômico ou social e que constituíam uma das mais instáveis alianças com a Tabor comunista. Os próprios taboritas, inábeis em conquistar o apoio dos camponeses, introduziram uma requisição forçada de alimento, primeiro para o exército e para as cidades, e depois para o estabelecimento de um estilo próprio de exação semi-feudal. Mais de quinze anos de vitórias contínuas se passaram e o próprio exército dava sinais de degeneração, enchendo-se de aventureiros vindos de toda Europa. Eventualmente os taboritas acabaram isolados e derrotados em 30 de maio de 1434, perto da Lipânia na Boêmia quando treze mil de um exército de dezoito mil foram mortos. Tanto Procópio o Grande, como seu tenente em chefe, Procópio o Pequeno caíram naquela batalha.

Os utraquistos, Papa Alexandre VI, e o Imperador Sigismund concordaram em negociar as bases dos Artigos de Praga, e em 1436 eles foram aceitos em toda parte de uma forma ambígua e modificada que permitia o uso opcional do rito romano pela Missa. A Igreja Nacional da Boêmia tomou a forma de uma espécie de igreja mista, unindo o rito ortodoxo com a comunhão com Roma, até depois da Batalha da Montanha Branca em 1620 na Guerra dos Trinta Anos. A partir dessa data essa prática foi abandonada e a obediência a Roma completamente restabelecida. Os próprios utraquistos capturaram Tabor em 1452 quando os militantes taboritas foram forçados a uma existência undergroud, para reemergirem como anabatistas e outras seitas radicais da Reforma iniciada por Lutero. Os pacifistas e os mais estritos comunistas religiosos fundaram a Unitas Fratrum, também conhecida como Irmãos Checos, Irmãos Moravianos, ou Irmãos Unidos, que existem até hoje. Os huteritas também trazem sua ascendência de Tabor.

As contínuas cruzadas papais e imperiais forçaram a formação de uma frente unida e ampla nos grupos de dissidentes reformistas e revolucionários da Boêmia. Sempre que a pressão externa relaxava, essa unidade era demolida pelo partidarismo, às vezes alcançando o ponto de conflito armado. Estas divisões eram definidas claramente por linhas étnicas e de classe.

A maioria dos nobres, ricos comerciantes alemães e proprietários de minas eram pró-Roma. Muitos deles deixaram o país. Outros conseguiram estabelecer-se em pequenos enclaves que nunca foram incorporados pelo estado boêmio revolucionário. A razão disso é que na verdade não havia qualquer estado boêmio revolucionário, nem mesmo um, unificado em termos de uma entidade política em terras checas. Os nobres e magnatas checos somaram-se a alguns alemães formando uma ala direitista no partido utraquista juntamente com o arcebispo e a Rainha Sofia. Para eles os Artigos de Praga não eram um programa mínimo mas um programa máximo. Uma vez secularizada a propriedade da Igreja eles permaneceram socialmente conservadores, bastante contentes com seus privilégios feudais escorados por monopólios e franquias, nada diferente da classe dominante inglesa do tempo de Henry VIII.

No começo da revolução, com o primeiro cerco de Praga, grande parcela do poder político se transferiu para as mãos da classe dos artesãos. Checos em quase sua totalidade, com exceção de certos profissionais como os ourives, eles se aliaram com pequenos nobres checos como Jan Zizka e com a maioria da classe média baixa, que representava um número considerável. Eles eram os militantes utraquistos. Para eles os Artigos de Praga eram um programa mínimo. Esta aliança era antipapa e não tinha nenhuma intenção de restaurar o catolicismo romano, visava uma Igreja Católica livre na qual o papa seria apenas um bispo de Roma, um bispo igual aos demais. Eles rejeitaram a doutrina romana da transubstanciação. A maior parte de seus clérigos adotara a doutrina de Wycliffe da permanência, ou seja, de que o pão e o vinho permanecem inalterados depois da consagração, de forma que o corpo e o sangue de Cristo apenas estão presentes espiritualmente, “como em um espelho”. Eles também rejeitaram a idéia de que a Missa era sagrada e a interpretaram como sendo essencialmente uma comunhão espiritual, um ato congregacional. Eles rejeitaram a estrutura social e econômica do feudalismo; embora começassem a desenvolver uma forma mercantil de capitalismo, sua base no futuro, eles estavam indefinidos sobre o que colocar em seu lugar. Politicamente eles eram democratas, embora líderes como Jan Zizka lentamente introduzissem lideranças da elite clerical, pequenos nobres, e cidadãos prósperos e educados.

O século XV foi uma época de inflação e de instabilidade econômica, especialmente na Boêmia. Praga desenvolveu uma grande classe de desempregados, como também um submundo de semi-criminosos. Tais pessoas, juntamente com os trabalhadores pobres, formavam um proletariado lumpen sempre pronto para revoltas, funcionando como o pavio da extrema esquerda.

Com o passar do tempo, com as notícias sobre a revolução na Boêmia se espalhando pela Europa, os sectários e hereges migraram para Praga — primeiramente das cercanias da Bavária, do Tirol, e da Renolândia, e eventualmente de locais longínquos como a Lituânia, Inglaterra, e Espanha. Um dos líderes da fraternidade Oreb era um lollardo inglês, Peter Payne. Após o estabelecimento das comunas de Tabor e Oreb, esta migração se transformou em uma inundação. Aparentemente todos os excêntricos e psicóticos religiosos deslocaram-se para a Boêmia. Em 1418 quarenta refugiados de Lisle e Tournai chegaram em Praga fugindo da violenta perseguição em seus países. Os primeiros foram os picardos. Os pikarti, como eram chamados, deram seu nome às formas mais extremas de revolta.

A reação à revolução boêmia no resto da Europa não foi diferente da reação aos red hunts e white terrors do século XX. Os hereges e cismáticos que tinham sido tolerados ou ignorados como inconseqüentes pelo Estado, em toda parte passaram a ser caçados, enviados à fogueira, ou linchados pela turba. Aqueles que puderam fugiram para a Boêmia, onde acreditavam que o paraíso terrestre estava em processo de realização. Todos esses diferentes elementos formaram uma classe, a classe daqueles que não tinham mais nada a perder. Contudo, eles não foram outra coisa senão o coração e a alma da extrema esquerda. Seus líderes e porta-vozes eram monges renegados, clero secular anterior, e pessoas alfabetizadas da classe média baixa.

Após seu início, a revolução boêmia não apenas foi deslocada de sua base camponesa, como veio a perder o apoio entusiástico dos seus seguidores camponeses, cuja atitude tendeu mais ao consentimento passivo do que à oposição ativa. Os camponeses estavam interessados na abolição das exações feudais, na redistribuição da terra, e na supressão das incipientes tendências à servidão que atingiria seu ápice depois da Reforma de Lutero. Uma vez conquistados esses objetivos, os camponeses perderam seu interesse na revolução, tornando-se conservadores pelas suas próprias conquistas. Considerando que nem Praga nem Tabor foram capazes de desenvolver novas formas efetivas de produção econômica, a revolução nas cidades foi forçada a retirar recursos do campo, e no caos econômico foi incapaz de proporcionar um retorno adequado ao valor recebido. A restauração do papa e do imperador significou um retorno ao feudalismo. A continuação de seus novos senhores no poder significou novas exações. Os camponeses permaneceram passivos.

A economia de Tabor foi chamada pelos historiadores posteriores de comunismo de consumo, não de produção, mas é difícil compreender como, durante tão longo período, os dois puderam ser mantidos separados. Há recentes estudos sobre o grau de socialização da produção em Tabor mas todos eles ainda estão em checo. Tabor controlou algumas das principais minas de ouro daqueles dias na Europa e sua produção parece ter ocorrido em uma base completamente comunista. Quando a comunidade estava no comando e quando comunidades afiliadas se estabeleciam em outros locais, grandes cofres eram colocados no centro da cidade, as pessoas vendiam todas suas propriedades e colocavam o dinheiro e suas jóias, se possuíssem, no cofre, e posteriormente também seus salários, aparentemente recebidos pelo trabalho efetuado em seus antigos empregos ou comércio à sua moda. A riqueza acumulada era distribuída igualmente para todos os cidadãos da comuna. Como as guerras hussitas foram mais movidas pela pilhagem, elas se expandiram mais pelo saque do que pela conversão, por essa razão as primeiras invasões ocorreram em território alemão. É difícil compreender como essas coisas funcionavam. Historiadores anticomunistas defendem uma grande semelhança àquilo que é chamado de “comunismo de brigand” do tipo que se desenvolveu nas comunidades hereges muçulmanas no Oriente Próximo. A evidência geral, por outro lado, indica que a vida em Tabor, Oreb, e outras comunas transcorreu de uma forma bastante normal, na forma de um comunismo produtivo, e que, considerando as dificuldades, não foi de forma alguma parasitário, ou certamente não mais do que o feudalismo decadente que substituiu. Aqueles que acreditavam em um comunismo puramente parasitário foram expulsos da cidade.

Assim surge o famoso Adamites cuja vida é supostamente retratada no quadro de Hieronymus Bosch, O Paraíso Terrestre. Ele foi celebrizado em nossos próprios dias pelo Big Sur and the Oranges of Hieronymus Bosch de Henry Miller; por toda parte da América jovens transviados se aglomeram nas rodovias, pedindo carona para Adamite que promete uma terra chamada Grande Sul, que eles descobrem consistir de um conjunto de montanhas escarpadas diante do mar, povoadas por nativos hostis que aparentemente sabem dizer apenas duas palavras no idioma inglês: “Move on”.

A maioria dos taborites, a Fraternidade de Oreb, e seus aliados na Nova Cidade de Praga chegaram logo a um consenso geral na revolução. Eles aceitaram a Bíblia numa combinação das doutrinas wycliffitas, waldensianas, e do Livre Espírito. A Bíblia era a autoridade exclusiva de fé e prática; os credos e as traduções da Igreja eram apenas corrupções, da mesma forma que seus ritos e cerimonias, a sagrada Missa, indulgências e orações pelos mortos, orações pelos santos, confissão auricular, extrema unção, batismo de crianças, e todos acessórios como crisma, bênçãos, água benta, vestuários de Missa, imagens, dias santos, tradicionais cantos de Missa e ofícios de oração. Todas essas coisas negavam a vida da Igreja apostólica. Aquelas pessoas acreditavam, como os waldenses, que o ministério e a autoridade de um padre em pecado era inválido. E não apenas isso, caso fosse necessário, qualquer leigo poderia celebrar a Eucaristia ou ouvir confissões.

A maioria dos militantes, ao longo da história dos dissidentes, foram milenaristas extremados. Eles acreditavam que a Segunda Vinda de Cristo (disfarçado de bergantim) e a destruição universal do mundo mau aconteceria quase imediatamente, primeiramente em 1420; e quando a data passou, foi adiada para mais alguns anos. Em preparação para a vinda do reino era dever da fraternidade dos santos encharcar suas espadas com o sangue dos malfeitores, realmente lavar as mãos com sangue. Após a destruição por atacado, assim como em Sodoma e Gomorra, Cristo apareceria no topo de uma montanha e celebraria a vinda do reino com um grande banquete messiânico para todos os crentes.

Enquanto esse dia não chegava, os taborites antecipavam essa comunhão dos santos promovendo grandes ajuntamentos próximos às colinas e montanhas onde a Eucaristia se tornava um massivo ágape ou festa do amor presidida pelos líderes militares ou religiosos como faziam os messias sacerdotais e reais do Qumran. No reino todos os sacramentos e ritos seriam dispensados e substituídos pela presença real de Cristo e do Espírito Santo, todas as leis seriam abolidas, os eleitos jamais morreriam, e as mulheres iriam parir crianças sem dor e sem relações sexuais prévias. Em 1420 os taboritas quebraram todas as conexões com a Igreja Católica pela eleição secular e pela ordenação de bispos e padres.

A maioria dos taboritas foram extremamente puritanos em sua conduta pessoal, mas uma minoria, influenciada pelas doutrinas do Espírito Livre de Pikarti, acreditava que o milênio já havia chegado. Eles compunham o reino dos eleitos, e para eles todas as leis tinham sido abolidas. Quatrocentos deles foram expulsos de Tabor em 1421 e vagaram nus pelos bosques, cantando e dançando, reivindicando estar no estado de inocência de Adão e Eva antes da queda. Com base nas observações de Cristo sobre as meretrizes e os publicanos, eles consideravam a castidade um pecado e aparentemente passavam a maior parte de seu tempo em contínuas orgias sexuais.

Jan Zizka, que já tinha se retirado da Fraternidade de Tabor, mudou-se para Oreb, uma comunidade menos extremada, passando o resto de sua vida caçando-os. Várias centenas fugiram e se estabeleceram em uma ilha em um rio ao sul da Boêmia, baseados nessa ilha passaram a invadir os bairros vizinhos, incendiando igrejas, matando padres e todos aqueles que opunham resistência. Após um breve cerco Zizka invadiu a ilha e exterminou a todos exceto um prisioneiro que, após escrever uma confissão completa de sua doutrina, foi queimado e suas cinzas lançadas ao rio.

Esse foi o fim da extática e orgiástica comuna dos adamitas. Acusações de desregramentos sexuais e cerimonias ultrajantes, como também assassinato e roubo, foram comuns na longa história da heresia, tais acusações são usualmente tidas como fantasias oriundas das mentes neuróticas de inquisidores celibatários. Mas a história dos adamitas não vem dos inquisidores, mas de homens que foram os próprios hereges revolucionários, que conheceram intimamente os adamitas, e que não tinham nenhuma razão para acusá-los falsamente. As crenças e conduta dos adamitas diferem daquilo que conhecemos dos vários grupos do Espírito Livre no resto da Europa apenas quando comparamos essas crenças e condutas à luz da liberdade de ação brevemente esboçada pelos adamitas em uma situação revolucionária.

Além das secessões de Tabor, com Zizka à direita e os adamitas à esquerda, aqueles que se opuseram à pregação da violência desenfreada se retiraram sob a liderança de Pedro Chelsicky para uma área rural da Boêmia e fundaram uma comunidade pacifista, rejeitando todo uso da força. Para Chelsicky, o poder político e o Estado existe apenas como um mal necessário, como um resultado do pecado original, para manter a ordem no mundo fora da comunidade dos verdadeiros cristãos, onde todas as relações são governadas pela paz e pelo amor. A comunidade que ele fundou não tinha qualquer organização externa; o único laço era o amor e o exemplo da vida de Cristo e dos apóstolos. Estes pacifistas extremados sobreviveram a todas as revoluções e contra-revoluções da reforma boêmia, para se tornar o Unitas Fratrum, os Irmãos Checos.

A vida em Tabor provavelmente teve uma glória especial, a glória de uma sociedade transfigurada, onde a vida era vivida de uma forma tão exultante que se aproximava da loucura. A comunhão era o acordo diário de milhares de pessoas que cantavam ao ar livre nos campos, onde celebravam vastos encontros religiosos no topo das montanhas, com exércitos retornando da batalha, em triunfo, carregados de pilhagem e empunhando troféus como mobílias luxuosas de cardeais e reis, com multidões dançando pelas ruas, com centenas de milhares de inimigos fugindo por cima do gelo quebradiço, com exércitos marchando ao som de hinos em uníssono, com o rugido dos vagões férreos e das rodas dos canhões, com um cálice dourado, em vez de uma bandeira, acima de suas cabeças. Tabor foi o monte onde Barak e Débora juntaram os anfitriões que aniquilaram Sísera, imortalizado em um dos grandes poemas da Bíblia; mas os taboritas também acreditavam que o Monte Tabor foi também o monte da transfiguração de Cristo, o Monte das Oliveiras onde ele pregou o sermão do apocalipse em Marcos 12 antes de começar sua marcha para a crucificação; e finalmente era a montanha da qual ele ascendeu para o céu. Todas essas coisas simbolizavam a natureza da vida vivida em Tabor.

Platão, São Thomas More, Campanella, Harrington, Bacon, todos tentaram imaginar sociedades nas quais a oportunidade para aquilo que a Igreja originalmente chama de pecado seria severamente inibida, onde seria praticamente impossível aos homens procurarem por bens menores imediatos em vez de um último maior bem. Tabor em seus primeiros anos resolveu o problema da utopia negando isso. Os taboritas foram os primeiros a tentar fundar uma sociedade no princípio de que a liberdade é mãe, não filha da ordem. Eles tiveram sucesso por causa de suas contínuas guerras. Na realidade, sem perceber, eles se tornaram uma teocracia militar.

Se o socialismo em um país é deformado e aleijado, o comunismo em uma cidade é impossível em qualquer período de tempo. Cedo ou tarde as amarras da sociedade se afrouxarão, mas o mundo lá fora não. Sempre se espera que isso aconteça, mais especialmente em tempos de paz. Tabor nunca foi capaz de balancear seu comunismo popular de consumo com um comunismo organizado e planejado de produção, nem de trocar bens entre comunas urbanas e comunas camponesas. Por aquele tempo foi amplamente apregoado e acreditado que os checos, quando colonizaram a Boêmia, eram comunistas e que os taboritas foram apenas os restauradores da comunidade original eslava. Isto provavelmente foi verdade. Comunas agrícolas funcionais que foram revivificações das primitivas comunidades camponesas eslavas, como as comunidades russas mir que remontam às aldeias neolíticas, devem ter existido. Quando a Contra-reforma esmagou a degenerada Igreja Utraquista Boêmia, foi o comunismo campônio dos huteritas e dos Irmãos que sobreviveu. A escravidão se estabeleceu na Boêmia em 1487 e alcançou sua forma mais extrema após a Revolta dos Camponeses na Alemanha e a Reforma de Lutero.
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Clifford Carwood Lipton

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Re: As Guerras Hussitas

Mensagem por Friedrich Paulus em Ter Jul 16, 2013 5:02 pm

mUITO BOM!
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Friedrich Paulus

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